As praças voltam a se encher de crianças trocando figurinhas. Aos sábados, no centro da cidade, nos bairros, clubes e outros espaços os álbuns da Copa despertam sonhos, amizades e conversas intermináveis sobre os grandes craques do futebol mundial. Meninos e meninas sabem escalar seleções inteiras, reconhecem jogadores de diversos países e acompanham as maiores estrelas do esporte. É uma paixão que atravessa gerações!
Mas, em meio a esse entusiasmo, uma pergunta merece ser feita: quantas dessas crianças sabem que um filho de Leopoldina participou diretamente do último gol de Pelé com a camisa da Seleção Brasileira?
A resposta, infelizmente, é: quase nenhuma. As gerações se sucedem e percebe-se um distanciamento cada vez maior das novas gerações em relação à história e aos personagens que ajudaram a construir a identidade de Leopoldina. Em uma cidade onde, muitas vezes, artistas, esportistas e personalidades que marcaram época recebem pouca valorização, a memória local corre o risco de cair no esquecimento.
Um compromisso com a memória
Há décadas, o Jornal Leopoldinense dedica-se a preservar a memória de Leopoldina. Seu acervo tornou-se um dos principais referenciais bibliográficos para pesquisadores, estudantes e todos aqueles que buscam compreender a riqueza cultural, esportiva, social e histórica do município.
Contar histórias como a de Zequinha é mais do que recordar um feito esportivo. É devolver à cidade um pedaço de sua identidade. Enquanto o mundo inteiro celebra a história do futebol com a Copa do Mundo, Leopoldina tem um motivo a mais para se orgulhar, pois, antes de a bola chegar aos pés do Rei Pelé para o seu último gol com a Seleção Brasileira, ela passou pelos pés de um menino que cresceu brincando nas ruas da Meia Laranja e da Praça da Bandeira, sonhando nos campos do Ribeiro Junqueira e levando consigo, para sempre, o nome de Leopoldina.
O último gol do melhor jogador de todos os tempos.
No dia 11 de julho de 1971, diante da Áustria, no Estádio do Morumbi, Pelé escreveu o último capítulo de sua história como artilheiro da seleção canarinho. Foi seu 77º e último gol vestindo a camisa amarela.
A jogada começou pela ponta direita, onde o leopoldinense José Márcio Pereira da Silva, o Zequinha, avançou e fez um cruzamento rasteiro. A bola passou por Tostão, que inteligentemente a deixou seguir. Pelé apareceu livre e apenas completou para as redes.
Era um simples lance de jogo, mas aquele passe entraria para sempre na história do futebol mundial. Dias depois, Pelé faria sua despedida oficial da Seleção Brasileira, diante da Iugoslávia, no Maracanã. Nunca mais voltaria a marcar pelo Brasil. O último gol do Rei teve participação decisiva de um filho de Leopoldina.
Das ruas da Meia Laranja para a Seleção Brasileira
José Márcio Pereira da Silva nasceu em 17 de novembro de 1948, na Praça da Bandeira, em Leopoldina. Filho de José da Antônia e Maria Aparecida Pereira da Silva, a dona Cola, viveu uma infância simples no bairro Meia Laranja, onde aprendeu muito mais do que a jogar futebol: aprendeu valores que levaria por toda a vida.
Em entrevista concedida anos atrás ao Jornal Leopoldinense, Zequinha resumiu sua infância em uma frase emocionante:
"Desejo o tipo de infância que tive em Leopoldina para qualquer criança no mundo."
Seu primeiro campo foi o das peladas nos campinhos de terra em Leopoldina. Depois vieram os treinamentos acompanhando, ainda menino, os jogadores do Esporte Clube Ribeiro Junqueira. Ficava observando atentamente os craques da época e repetia seus movimentos, sonhando vestir aquela camisa um dia.
O sonho tornou-se realidade. Ainda muito jovem passou pelas categorias de base do Ribeiro Junqueira, onde chamou a atenção do técnico Getúlio Subirá. Pouco tempo depois, em uma partida amistosa realizada em Leopoldina contra uma seleção do Rio de Janeiro, seu talento encantou um observador ligado ao Flamengo. Era o início de uma carreira extraordinária.
Dos gramados de Leopoldina aos grandes clubes do Brasil
Em 1965, Zequinha deixou Leopoldina rumo ao Rio de Janeiro para integrar as categorias de base do Flamengo. Passou rapidamente pelo Palmeiras e encontrou no Botafogo o clube onde se consagraria nacionalmente. No alvinegro carioca tornou-se titular da lendária camisa 7, sucedendo um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro: Garrincha. Seu futebol veloz, driblador e objetivo encantou a torcida e chamou a atenção da Seleção Brasileira.
Entre 1971 e 1973, Zequinha disputou cinco partidas pela Seleção, integrou o elenco campeão da Taça Independência de 1972 e dividiu o gramado com nomes como Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson e Carlos Alberto Torres.
Depois brilhou também no Grêmio, onde foi campeão gaúcho e entrou definitivamente para a história ao marcar três gols em um clássico Gre-Nal, feito lembrado até hoje pela torcida gremista. Em seguida conquistou outro Campeonato Brasileiro defendendo o São Paulo. Recebeu ainda a Bola de Prata de 1973, prêmio concedido ao melhor ponta-direita do futebol brasileiro.
No fim da carreira levou seu talento para os Estados Unidos, atuando em diversas equipes e permanecendo naquele país, onde passou a trabalhar na formação de jovens atletas e no desenvolvimento do futebol.
Leopoldina precisa conhecer e valorizar a história do seu povo
Zequinha sendo entrevistado por Luiz Otávio e Jairo Fernandes no Jornal Leopoldinense no Ar em 2010, na extinta Rádio Jornal AM. (Foto: João Gabriel Baía Meneghite - Arquivo Leopoldinense)
A história de Zequinha provoca uma reflexão: Enquanto nossas crianças conhecem, com justiça, Messi, Mbappé, Vini Jr., Haaland e tantos outros craques internacionais, quantas sabem quem foi José Márcio Pereira da Silva?
Quantas já ouviram que um leopoldinense participou diretamente do último gol de Pelé pela Seleção Brasileira?
Valorizar a história local não significa apenas olhar para o passado. Significa fortalecer a identidade de um povo, preservar sua memória e inspirar as novas gerações por meio daqueles que ajudaram a construir a história da cidade. É esse compromisso que o Jornal Leopoldinense assume há décadas: pesquisar, registrar e divulgar a trajetória de personagens que levaram o nome de Leopoldina para além de suas fronteiras, contribuindo para que suas histórias permaneçam vivas e acessíveis às gerações de hoje e de amanhã.
Zequinha no Morro do Cruzeiro (Arquivo jornal Leopoldinense)