29/02/2016 às 15h26min - Atualizada em 29/02/2016 às 15h26min

Semana dos poemas de Carlos Drummond de Andrade

       Nesta  semana ,  o  “  CANTINHO  POÉTICO  “ vai  desfilar  alguns  poemas  desse  mineiro  maravilhoso  de   Itabira  do  Mato  Dentro   ,  CARLOS  DRUMMOND  DE  ANDRADE , poeta  maior  de  nossa  Literatura  Brasileira . Mesmo diante  de sua  individualidade é  respeitado e admirado como um grande  criador de temas desenvolvidos  em uma  brilhante linguagem mítica . Suas  obras   têm um sentido social , um sentido  “ político “  na significação  mais alta  da palavra .  Drummond   separa sempre a sua vida particular de suas poesias  e essa  dissociação da  personalidade não deixa de parecer  estranha   aos  homens  normais , provindo , daí , toda estranheza de seus  poemas   . Isto pode ser observado   em  toda  sua  produção  poética .



" POEMA  DE  SETE  FACES  “

Quando  nasci , um anjo torto
Desses  que vivem  na sombra
Disse  :  Vai , Carlos !  ser   gauche  na vida .
 
As  casas  espiam  os  homens
Que  correm  atrás  de  mulheres .
A  tarde  talvez  fosse  azul ,
Não  houvesse  tantos  desejos .
 
O  passa  cheio  de  pernas :
Pernas  brancas  pretas  amarelas .
Para  que  tanta  perna  ,  meu  Deus , pergunta  meu  coração .
Porém  meus  olhos 
Não  perguntam  nada .
 
O  homem  atrás  do  bigode
É  sério , simples e forte .
Quase  não  conversa .
Tem  poucos ,  raros  amigos
O  homem  atrás dos  óculos  e  do  bigode .
 
Meu  Deus ,  por que me abandonaste
Se  sabias  que eu  não  era  Deus
Se  sabias  que  era  fraco .
 
Mundo  mundo  vasto  mundo ,
Se  eu  me  chamasse  Raimundo
Seria  uma  rima  , não  seria  uma  solução .
Mundo  mundo  vasto  mundo ,
Mais  vasto  é  meu  coração  .
 
Eu  não  devia  te  dizer
Mas  essa  lua
Mas  esse  conhaque
Botam  a  gente  comovido  como  diabo .  
 
     Drummond   exterioriza   em  um  poema  todos  os  obstáculos  que  a  vida  nos  prega  e  que são  perpetuados  em  nossa  mente durante a trajetória  do nosso  dia  a  dia  :

“   NO  MEIO  DO  CAMINHO  “

No  meio  do  caminho  tinha  uma  pedra
Tinha  uma  pedra  no  meio  do  caminho
Tinha  uma  pedra
No  meio  do  caminho  tinha  uma  pedra .
 
Nunca  me  esquecerei  desse  acontecimento
Na  vida  de  minhas  retinas  tão  fatigadas .
Nunca  me  esquecerei  que  no  meio  do  caminho
Tinha  uma  pedra
Tinha  uma  pedra  no  meio  do  caminho
No  meio  do  caminho  tinha  uma  pedra  .
 
   Uma  pequena  e  simples  metapoesia   que retrata a inspiração poética ,  mas a dificulta a  sua manifestação  ao exteriorizar  para  o  papel .

" POESIA"

Gastei  uma  hora  pensando  um  verso
Que  a  pena  não  quer  escrever .

No  entanto  ele  está  cá  dentro
Inquieto  ,  vivo .

Ele  está  cá  dentro 
E  não  quer  sair .

Mas  a  poesia   deste  momento
Inunda  minha  vida  inteira  .
 
   Drummond   , com  muita  consciência  estilística  ,  descreve   os  hábitos  comportamentais  de  uma  pacata cidade  do interior , aguçando  a  ideia  de  calmaria  na  vida  de  seus  habitantes .

"CIDADEZINHA   QUALQUER"

Mulheres  entre  laranjeiras                                                                                                                                                     “  
Casas  entre  bananeiras
Pomar  amor  cantar .
 
Um  homem  vai  devagar .
Um  cachorro  vai  devagar .
Um  burro  vai  devagar .
 
Devagar ...  as  janelas  olham .
Eta  vida  besta  , meu  Deus  .
 
      Com  ares  de  anedota  , mas  caracterizando  , ironicamente ,  um  espanto  absurdo  de  um  ditador , diante  de  uma  cena  repleta  de  ingenuidade  ,  Drummond  demonstra  em um simples poema a dissociação do bem e do mal .

" ANEDOTA   BÚLGARA"

Era  uma  vez  um  czar  naturalista
Que  caçava  homens .
Quando  lhe  disseram  que  também  se  caçam  borboletas  e  andorinhas  ,
Ficou  muito  espantado
E  achou  uma  barbaridade  .
 
   Em  um  belo  sentimento  bairrista  ,  Drummond  faz  um  retrospecto  na  memória  evidenciando  momentos de  lembrança  de  sua  terra  natal  ,  ITABIRA  , com  muito  amor  e  saudade .

" CONFIDÊNCIA  DO  ITABIRANO"

Alguns  anos  vivi  em  Itabira .
Principalmente  nasci  em  Itabira .
Por  isso  sou  triste ,  orgulhoso :  de  ferro .
Noventa  por  cento  de  ferro  nas  calçadas .
Oitenta  por  cento  de  ferro  nas  almas .
E  esse  alheamento  do  que  na  vida  é  porosidade  e  comunicação .
 
A  vontade  de  amar  ,  que  me  paralisa  o  trabalho ,
Vem  de  Itabira ,  de  suas  noites  brancas ,  sem  mulheres  e  sem  horizontes .
E  o  hábito  de  sofrer ,  que  tanto  me  diverte ,
É  doce  herança  itabirana .
 
De  Itabira  trouxe  prendas  diversas  que  ora  te  ofereço  :
Este  São  Benedito  do  velho  santeiro  Alfredo  Duval ;
Este  couro  de  anta ,  estendido  no  sofá  da  sala  de  visitas  ;
Este  orgulho  ,  esta  cabeça  baixa  ...
 
Tive  ouro  ,  tive  gado ,  tive  fazendas .
Hoje  sou  funcionário  público .
Itabira  é  apenas  uma  fotografia  na  parede .
Mas  como  dói !!
    Méier  é  um  bairro  no  Rio  de  Janeiro  que  teve  dois  cinemas :”  Mascote”   e  “ Para  Todos “ ,  um  ao  pé  do  outro , onde  ofereciam  filmes  maravilhosos  na  época  das  salas  de  projeção  . Drummond  pega  desse  fato  e  constrói  um  poema  sobre  indecisão .

"INDECISÃO  DO  MÉIER"

Teus  dois  cinemas ,  um  ao  pé  do  outro ,  por  que  não  se  afastam
Para  não  criar ,  todas  as  noites ,  o  problema  da opção
E  evitar  a  humilde  perplexidade  dos  moradores  ?
Ambos  com  a  melhor  artista  e  bilheteira  mais  bela ,
Que  tortura  lançam  no  Méier  !
 
     Na  dura  percepção  niilista  ,  Drummond  constrói  um  belo  poema  , questionando um  personagem   a  respeito   da existência  que se perde  no meio da sua própria vida . O  Poeta   vai  inquirir , durante a manifestação do poema , José sobre   uma solução para o fato .

" JOSÉ"

E  agora , José ?
A  festa  acabou ,
A  luz  apagou ,
O  povo  sumiu ,
E  agora , José  ?
E  agora , você  ?
Você  que  é  sem  nome ,
Que  zomba  dos  outros  ,
Você  que  faz  versos ,
Que   ama  , protesta ?
E  agora , José  ?
Está  sem  mulher ,
Está  sem  discurso ,
Está  sem  carinho ,
Já  não  pode  beber ,
Já  não  pode  fumar ,
Cuspir  já  não  pode ,
A  noite  esfriou ,
O  dia  não  veio ,
O  bonde  não  veio ,
O  riso  não  veio ,
Não  veio  a  utopia
E  tudo  acabou 
E  tudo  fugiu
E  tudo  mofou ,
E  agora ,  José  ?
E  agora , José  ?
Sua  doce  palavra ,
Seu  instante  de  febre ,
Sua  gula  e  jejum ,
Sua  biblioteca ,
Sua  lavra  de  ouro ,
Seu  terno  de  vinho ,
Sua  incoerência ,
Seu  ódio __  e  agora  ?
Com  a  chave  na  mão 
Quer  abrir  a  porta , 
Não  existe  porta ; 
Quer  morrer  no  mar ,
Mas  o  mar  secou ;  
Quer  ir  para  Minas ,
Minas  não  há  mais ,
José ,  e  agora  ?
Se  você  gritasse ,
Se  você  gemesse ,
Se  você  tocasse
A  valsa  vienense ,
Se  você  dormisse ,
Se  você  cansasse  ,
Se  você  morresse ...
Mas  você  não  morre ,
Você  é  duro  ,  José !
Sozinho  no  escuro 
Qual  bicho-do-mato ,
Sem  teogonia ,
Sem  parede  nua
Para  se  encostar ,
Sem  cavalo  preto 
Que  fuja  a  galope ,
Você  marcha ,  José !
José , para  onde  ?
 
 
 
 
 
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