10/03/2016 às 16h16min - Atualizada em 10/03/2016 às 16h16min

Os poemas de Cora Coralina

Semana  esplêndida em que  CANTINHO  POÉTICO  expõe  os  poemas de uma excelente poetisa que fora despertada para o mundo da literatura pelo grande poeta CARLOS  DRUMMOND DE ANDRADE  cantando liricamente com suas palavras o magistral senso criativo de  “   CORA  CORALINA  “.

"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu 'Vintém de Cobre' é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia (...)."

(Fragmento de correspondência entre Carlos Drummond de Andrade e Cora Coralina)

          Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas , com pseudônimo de  CORA  CORALINA  , mulher simples , doceira de profissão , nasceu em Vila Boa de Goiás , no dia 20 de agosto de 1889 , falecendo em Goiana no dia 10 de abril de 1985 . Senhora de manejo especial com as  palavras , compunha suas poesias  com temas folclóricos que faziam parte de seu cotidiano , fatos que a inspiraram para que atingisse um nível de qualidade literária . Seus poemas priorizam mais as mensagens em lugar das formas  , até por que não dominava as regras gramaticais nem modelos das estruturas dos poemas. Intrigada diante de um mundo em que se esforçava entender e a posição que deveria representar diante dele , a Poetisa procura compreender o emaranhado de seu cotidiano , vivendo minuto a minuto o comportamento da Cidade  de Goiás , o que a levou a uma simplicidade na forma e no contudo na construção de suas poesias e o caminho para caracterizar a mais alta riqueza de espírito .

    Passemos para  as apresentações das obras fantásticas dessa bela Poetisa . Observem a sutileza e o grau de simplicidade poética como é conduzido um tema  que , didaticamente , nos ensina o caminho para a conquista dos prazeres da vida através de comportamento que nos leva na construção da simples amizade .

Não Sei        Cora Coralina
Não sei... se a vida é curta ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
Mas que seja intensa, verdadeira, pura... Enquanto durar ...   


A Partido em defesa das mulheres da vida  contra as atitudes  de parte de uma sociedade que não entende o problema social vivido por elas , CORA CORALINA  traça um pequeno retrato de sua alma fraternal , desmistificando totalmente o comportamento preconceituoso que se tem  da :

MULHER DA VIDA

Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.

 
Um esplêndido exemplo de como ver o dia a dia através da experiência vivida pela  Poetisa . A mensagem é direcionada para todos que observam a vida somente pelo lado positivo ou pelo lado negativo , dando , didaticamente , sobre expressões poéticas , os conhecimentos obtidos pela prática da própria  vida .

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

  
Poeticamente  , CORA  CORALINA   envia  uma  mensagem de amor às mães , esclarecendo  a grande tarefa na criação de seus filhos  , procurando alertá-las  para suas divinas forças maternais  diante da própria vida e não se  deixar iludir  com os prazeres de liberdade  em detrimento do afeto e do carinho que deva dedicar a eles .
 
Mãe

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.
 
   Doceira de profissão e poeta por vocação, CORA  CORALINA  tinha as mãos precisas para o verbo e para o açúcar. Apesar de se considerar mais cozinheira do que escritora dominava as duas artes .
 
"Minhas mãos doceiras...
Jamais ociosas.
Fecundas. Imensas e ocupadas.
Mãos laboriosas.
Abertas sempre para dar,
ajudar, unir e abençoar.

Mãos de semeador...
Afeitas à sementeira do trabalho.
Minhas mãos são raízes
procurando terra.
Semeando sempre."


Outro  poema  que valoriza a  profissão  de doceira com o mesmo prazer  que lida  com seu  mundo  poético .
 
Sendo eu mais doméstica do
que intelectual,
Não  escrevo jamais de forma
consciente e raciocinada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a
consciência de ser autêntica.
[...]
Sou mais doceira e cozinheira
do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e
à saúde humana.”
 
  Em  um  belo entrelaçamento comparativo entre o presente e o passado representados pelos jovem e velhos , CORA CORALINA ,  a  pretexto de falar  da  construção  do poema  ,  filtra , liricamente , os agentes responsável pelos tempos idos e vindos .
 
Traço de união

Irmanadas na poesia
nos encontramos:
Quem vem vindo.
Quem vai indo.
Na roda-viva da vida
girando se esbaldando
no encalço de uma rima
fugidia.
 
Pegar no laço do pensamento
a rima feliz e plantar com amor
na divisa extrema do verso...
A chamada rima de ouro
que tem forma de chave de ouro.
E, dizer que há poetas consagrados
que têm delas um chaveiro!
 
Com os dedos pegamos a luz
Começou o seu tempo.
Meu tempo se acaba.
O esplendor de uma aurora.
O poente que se apaga.
 
Fui na vida o que estás agora.
Tu serás o que sou.
Nosso traço de união.
És o passado dos velhos.
Eu, o futuro dos moços.

Encerramos  esta  amostragem mínima da galeria poética dessa mulher fantástica , apresentando um belo  poema  que expressa uma verdadeira tranquilidade diante da morte , exteriorizando  ,  liricamente ,  em:

Meu Epitáfio

Morta... serei árvore 
Serei tronco, serei fronde 
E minhas raízes 
Enlaçadas às pedras de meu berço 
são as cordas que brotam de uma lira. 
 
Enfeitei de folhas verdes 
A pedra de meu túmulo 
num simbolismo 
de vida vegetal. 
 
Não morre aquele 
que deixou na terra 
a melodia de seu cântico 
na música de seus versos. 
 

 
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