10/06/2016 às 18h59min - Atualizada em 10/06/2016 às 18h59min

A autenticidade lírica da literatura popular está contida nos FOLHETOS DE CORDEL

O   CANTINHO  POÉTICO  dedicará neste espaço  um tipo de literatura próprio dos poetas populares do Nordeste brasileiro , que expõem  ,  em suas artes , uma técnica de improviso através de seus folhetos : “  LITERARURA  DE  CORDEL“ .  Sobre sua origem , sabe-se  apenas que foi assimilada em  Portugal  antes do século  XVII .   Como  definição , é uma espécie  de poesia  popular que é impressa  e  divulgada em folhetos  ilustrados  com o processo  de  xilogravura .  Ganhou o nome  de  CORDEL  , porque são expostos  ao  povo  amarrados  em cordões  que são estendidos  em pequenas lojas  de mercados populares  ou  até mesmo  nas  ruas  . Suas expressões  e  temas literários  são  originados  do  povo que sugere aos  artistas populares  , dentro de uma sensibilidade  criativa ,   aguçada  observação  nos problemas vivenciados na sociedade ,  transcrevendo –os  em  seus  versos .  No  folclore  existe uma parte  que é chamada  de   literatura  oral e dentro  dela  temos  a  poesia  .

Literatura de cordel

Literatura de cordel



     Começaremos  definir  os  vários  significados  resultantes   do  exame  de  temas  e  textos  do  mundo  do  cordel . Primeiramente  faremos  uma  abordagem  no  campos  da religião , aí  os  folhetos  são  verdadeiros ecos do povo ao  se  apegar  aos protetores  ,  guardiães ,  como  Padre  Cícero  Romão , conselheiro  de  todas  as  horas , como protetor  dos humildes  e  pobres .

       Apresentaremos inicialmente  um poeta  tradicional na  literatura  de cordel  brasileira , possuidor  de  um senso  criativo dentro da  Cultura  Popular :   JOTA  RODRIGUES  .  Seus  versos  percorrem  os  temas  mais  recorrentes  , retratando  o  cotidiano  da  sociedade   brasileira  ,  da  vida  urbana  e  rural  ,  da  política  e  das  condições  sociais .  Como  todo  poeta  de  cordel ,  Jota  Rodrigues  está  sempre  atento  aos  problemas   da  saúde  e  da  educação  do  povo  brasileiro . Suas  publicações  versam em torno  de 400 títulos  escritos  e  formatados em  uma   máquina  impressora  velha  nos  fundos  de  seu  quintal  em  Morro  Agudo  , distrito  de  Nova  Iguaçu , Estado  do  Rio  de  Janeiro .

       Analisaremos  alguns  fragmentos da vasta galeria poética  de  JOTA  RODRIGUES  . Lembramos  que o Poeta nunca frequentou bancos escolares  e aprendeu  as  formas  das  letras  copiando  e  cobrindo com carvão  nas calçadas , logo ,  o esboço  crítico sobre os deslizes da língua portuguesa  não terá nenhum fundamento ,  se a leitura  obedecer somente  à mensagem em forma de arte, então ,  já é importante para os conceitos literários e para a satisfação de uma boa leitura .

      Durante uma palestra dada na Universidade Iguaçu , alguns acadêmicos solicitaram ao poeta  a sua visão sobre folclore , e ele atendeu em forma de improviso , formatando depois para o folheto . Com a praticidade dos problemas culturais observados  durante a trajetória de sua vida , Jota Rodrigues esboça em seu  folheto versos que conceituam  o folclore  em :

“ O  QUI  É  O  FOLCLORE  DO  MEU  BRASIL   “
 
OU SENHORA APARECIDA
COM VOSSOS PODERES MIL
AJUDAIME A DISCREVER
O QUE AS ESCOLAS MI PIDIU
UM JEITO QUI SE COMEMORE
AS RIQUEZAS DO FOLCLORE
DO NOSSO IMENSO BRASIL .
 
O FOLCLORE REPRESENTA
A MAIOR FESTA VERDADEIRA
VIVIDA PELA UMANIDADE
DESDE A GERAÇÃO PRIMEIRA
É AS GRANDES FESTIVIDADES
DE REMOTA ANTIGUIDADES
DESTA NAÇÃO BRASILEIRA
 
E A QUASE SETENTA ANOS
NO FOLCLORES EU PERMANEÇO
POREM DESCREVELO A FUNDO
O PRIVILEGIO NÃO MEREÇO
MAIS COM TODA ONESTIDADE
DISCREVO DELE A VERDADE
COMO O VIVI E O CONHEÇO .
      
      O  povo  nordestino  ainda procura resgatar  a verdadeira  história sobre  LAMPIÃO , deformada por um mar de exageros  e  mentiras  lançadas  pelas elites  . Neste  cordel Jota Rodrigues  narra uma clara e justa  história sobre o homem mais destemido do  Nordeste .

 “ LAMPIÃO  NÃO  FOI  BANDIDO  “    
 
 LAMPIÃO  NÃO  FOI  BANDIDO 
 OU  MARIA  DE  NAZARÉ
DAIME  RIMA  E  INSPIRAÇÃO
PRA  QUI  EU  NESTE  CORDEL
DESCREVA  COM  EXATIDÃO
LAMPIÃO  NÃO  FOI  BANDIDO
MAIS  UM  VINGADOR  TRAIDO
PELAS  LEIS  DESTA  NAÇÃO
 
REVISTA  RADIOS  JORNAIS
CINEMA  TELEVISÃO
E  POETAS  CONCEITUADOS
MODELARO  UM  LAMPIÃO 
DE  TERROR  E  BARBARISMO
COVARDIA  E  BANDITISMO
UM  DETESTAVEL  LADRÃO
 
MAIS  LAMPIÃO  NÃO  FOI  BANDIDO
COVARDE  MONSTRO  OU  LADRÃO
MININO  POBRE  QUI  NA  INFANCIA
VIVERA  COM  OS  PES  NO  CHÃO
E  QUI  NASCERA  COM  UM  OLHO  BAIXO 
 E  OS  OUTROS  MININOS  AOS  CAIXO
FASILE  UMILIIAÇÃO .

    Nos  versos  do  folheto  “  Favelas  berços  dos  injustiçados  “ , Jota  Rodrigues  retrata  os  casos  de sofrimento  dos  moradores  das  favelas  que  conseguem  retomar  a  alegria  apesar  de tanta  covardia e miséria .

“ FAVELAS  BERÇOS  DOS  INJUSTIÇADOS  “
 
BOM  JESUS  MESTRE  DOS  MESTRES
E  DEFENSOR  DOS  DESPRESADOS
CONCEDEIME  INSPIRAÇÃO
QUI VOU  NESTES  VERSOS  RIMADOS
EM  MENSAGEM  SIMPLE  E  SINGELA
DESCREVER   NOSSAS  FAVELAS
BERÇOS  DOS  INJUSTIÇADOS
 
FAVELAS  JÁ  VIROU  MODA
EM  NOSSO  BRASIL  AMADO
SETE  LETRAS  QUI  EXPRESSA
O  NOSSO  PAIZ  ADORADO
TODO  DIA  SURGE  UMA
POREM  NÃO  HÁ  QUEM  ASSUMA 
O  SEU  CRESCIMENTO  ADOIDADO
 
TODO MAL TEM SEU COMEÇO
DIZ O PROVERBIO ASSIM
AS FAVELAS TEM  NASCENTES
DOS  FAZENDEIROS RUIM
QUI IMPONHEM AO LAVRADOR
MISERIA FOME E TERROR
COM AS AMBIÇÕES DE CAIM
    
 Depois  de  trabalhar  anos  e  anos  produzindo  para  a  sociedade ,  o  idoso sofre  maiores  humilhações . Jota  Rodrigues  pinta  uma  quadro  do  descaso  que  sofre  a  terceira  idade  através do folheto :

 “O DISCRIMINADO  IDOZO   “
 
DEUS  QUI  FEZESTE  DE  MIM
UM  POETA  CAPRICHOSO 
DAIME  LUZ INSPIRAÇÃO
E   UM  ROTEIRO  VENTUROSO
PARA  QUI  EU  POSSA  DESCREVER
O  DESPRESO  E  O  SOFRER
DO  DISCRIMINADO  IDOZO .
 
NO  BRASIL  DE  CANTO  A  CANTIO
O  PRECONCEITO  É  UM  SÓ
OS  IDOZOS  SÃO  TRATADO
COMO  CACHORRO  COTÓRO
OU  UM  VELHO  BOI  CANÇADO
QUI  NO  MATADOURO  É  JOGADO
PARA  O  ABATE  SEM  DÓ .
 
QUANDO O BOI DE CARRO  É  NOVO
TEM  A  FORÇA  DE  UM  SANSÃO
ARA  A  TERRA  ABRE  ESTRADA 
PUCHA  AS  TORAS  DO  GROTÃO 
E  NAS  SERRAS  E  NAS  CORDILHEIRA 
TRANSPORTA  COLHEITAS INTEIRAS
PRA  OS  ARMAZENS  DO  PATRÃO

OBS.) TODOS OS FRAGMENTOS FORAM RETIRADOS  DA  “ PRIMEIRA  ANTOLOGIA DE CORDÉIS “ DE JOTA RODRIGUES , EDITADA PELO CENTRO INTERCÂMBIO CULTURAL  “  MARTI  POPULAR  “.

    Agora  abriremos  espaço  para  apresentação  de alguns  fragmentos  dos folhetos  do  cordelista  mais  antigo  da  Feira  de  São  Cristóvão  :  José  João  dos  Santos  mais  conhecido  como  MESTRE   AZULÃO  .  Poeta experiente , morador do Rio de Janeiro , foi um dos principais fundadores da feira nordestina de São Cristóvão (RJ), como ele mesmo conta no seu livreto “A feira nordestina, foi assim que começou” . É na própria feira que ele possui sua barraquinha de cordéis, onde os vende em grande quantidade.

Quem quiser saber da feira
Venha pra perto me ouvir
Que vou contar em detalhes
Sem aumentar nem mentir
Mas num falar positivo
Vou explicar o motivo
Da nossa feira existir
 
No ano quarenta e nove
Vim pro Rio a vez primeira
Fui visitar São Cristóvão
Então por esta maneira
Sem de nada conhecer
Depois eu pude entender
O começo desta feira
       
       Morador  da  Baixada  Fluminense , Azulão , em sua trajetória rumo à Feira de São  Cristóvão, era  usuário constante  dos  trens  , o que lhe  permitia  vivenciar com os  comportamentos  daquele ambiente , daí  brotavam situações  que inspiravam o poeta criar seus folhetos 

O trem da madrugada
Leitores trago mais uma
Criação muito engraçada
Da minha lira poética
Que sempre vive afinada
Desta vez descrevo bem
O movimento do trem
Que desce de madrugada

Seja de Paracambi
São Mateus ou Santa Cruz
A turma da fuleragem
Que só bagunça produz
De madrugada só quer
Carro que tem mais mulher
Porta enguiçada e sem luz


    Em tema bem atual , Azulão  , com senso crítico , demonstra em seus versos um enorme descontentamento com os políticos brasileiros , por causa das descobertas das corrupções  que escandalizaram o país . Apresentamos apenas as 12ª.  e  13ª.  estrofes   do folheto :

 “  CPI , MENSALÃO  E  RATOS  BRASILEIROS “

Se apodera de muitos corações
Pra tomar volumosas proporções
No caminho do luxo e do prazer
Todo mundo quer ouro, quer crescer
Com a máfia da vil corrupção
Suga o povo e os cofres da nação
Que estão explorados e falidos
E o Brasil dominado por bandidos
Quanto mais poderoso mais ladrão”

 
“Potentado nem um vai pra cadeia
Num país que só há democracia
Para a classe da alta burguesia
Que está sempre de mala e bolsa cheia
Só o pobre vai preso e leva peia
Quando rouba alguma coisa pra comer
Mas o rico é o dono do prazer
Amparado por todo esse regime
Mata, rouba, faz tudo quanto é crime
Equipado nas armas do poder”
                                                      ( 12º e 13º estrofes de CPI, Mensalão e ratos brasileiros )
           A  farta “  matéria  prima  “ que  sustenta  e  molda  esta  exemplar  expressão  literária  está  presente  naquele  que  lê ,  que  escreve , que  ouve  casos  e  os  conta , perpetuando , assim, a nobre  arte  popular  do  cordel .
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