23/06/2016 às 19h53min - Atualizada em 23/06/2016 às 19h53min

Apresentação temática do romance “Iracema de José de Alencar”

WALDEMAR PEDRO ANTÔNIO
JOSÉ  MARTINIANO  DE  ALENCAR  nasceu  em  Macejana  ( Ceará ) , no  ano  de  1829 e  morreu  no  Rio  de  Janeiro ,  em  1877 .  Dedicou-se  à  literatura ,  ao  jornalismo , à  advocacia . Pertencente  à primeira geração Indianista do  período  romântico ,  foi  o  primeiro  ficcionista  de  bom  nível na  literatura  brasileira. Sua  obra  representa  ,  na  prosa  , a  realização  da  tendência  nacional . Seu  estilo  é  livre ,  muito  pessoal e  natural . A  leitura  atenta  de  qualquer  de  seus  livros indianistas  mostra a sobriedade  com que  pinta seus cenários e personagens .  A  forte  presença da  natureza  é  dividida , sobretudo ,  ao  uso de  metáforas  naturais , que  fundem  a  realidade  humana na  paisagem ,  tornando  indissolúvel ,  na  sua  obra  , a  vinculação  entre  o  homem  e  as  coisas .  Como  recurso  romântico , descobre  o  mundo  de  atrações  e  superstições ,  de  riquezas  com  suas  cores  tropicais  da  vegetação  e  da  fauna ,  com  seus  segredos  profundos  envolvidos  pelo  verde  carregado das  selvas , com  seus  símbolos respeitados , indicadores de  um  novo  povo  ideal  com  um  novo  valor intrínseco .  Usa  em  suas  obras  um  vocabulário  bem  brasileiro , com  dificuldades advindas da variedade da fauna  e  da  flora  evocadas ,  em  parte  desconhecidas , serve  como  informação  de uma  realidade  próxima e acessível , mas  inexplorada nas potencialidades  poéticas  de suas  raízes  naturais .

       Passemos  agora explicitar o  enredo de  “  IRACEMA “ que , segundo  Alencar , é  uma lenda em  um  quase  poema  em  prosa , simbolizando  o  encontro  da  raça  branca  com  a  indígena , de  que  proveio a  civilização  brasileira . O nome  da  obra tem  um intuito crítico sobre a exploração  do homem branco europeu sobre as terras americanas descobertas , por isso  o  acróstico de “ IRACEMA “ resultar em   uma mistura de letra da palavra  “  AMÉRICA  “.   A  linha  do  enredo  começa  quando  o  guerreiro  português Martim  (  personagem  histórica ) , perdido  na  mata , é  abrigado  pelo  pajé  dos  tabajaras , Araquém . A  filha  deste , Iracema ,   a  “  virgem  dos  lábios  de  mel  “ ,  apaixona-se pelo  homem branco , defendendo  da  sanha  da   tribo e  com  ele  foge . Vivem  um  belo  idílio nas  florestas  e  praias  do  Ceará ,  junto  ao  fiel  amigo  Poti  ,  guerreiro pitiguara .  Porém os  trabalhos  da  guerra  afastam  Martim  da  esposa que , depois  de  dar  à  luz  um  filho ,  morre .

        O  tema  ,  considerado  como  o  da  afirmação do  amor entre  o  povo  estranho  e o nativo , com  a inversão da  posição  do  conquistador à  do  conquistado justamente pelo
sentimento  de  que  se  vê  possuído . Iracema abandona  o  próprio  povo  para  acompanhar  o  estranho  de  outra  raça . O  destino coloca três  pessoas , de  três  povos  praticamente  inimigos , a  viverem calma  e  isoladamente à  beira  da  praia e  em  meio  às  riquezas  naturais  que  uma  paisagem  favorecida  e  privilegiada lhes  oferece.  Numa  “  realidade  irreal  “ ,  os  membros tendem à  dissolução :  impossível  viver  na  tribo  de  Iracema onde , por  amor ,  a  índia  contrariou os  costumes  da  tribo  tabajara ;  impossível  conviverem  na  tribo  de  Poti , com  os  pitiguaras  ,  inimigos  dos  tabajaras ;  e  impossível  para  Martim  viver  com  as  lembranças da  pátria  a  lhe  roubarem  até  a  alegria  do  amor  por  Iracema . A felicidade  da  convivência  é  toldada  pela  tristeza  da  alma  distante da  terra  natal .

       Embora  a  trama  se  desenvolva  em  direção  do  desmembramento  do  grupo , é  o  drama  de  Iracema  que  marca  o  ponto de  real  importância  da  obra  :  a  índia  que  morre de  amor  pela  tristeza  de  reconhecer  a  insatisfação  do  esposo fatigado  de tanta  felicidade  e  a  cismar  na  sua  terra  longínqua .  É  o  drama  de  quem tudo  abandona por  um  objetivo  alcançado ,  mas  amargamente temporário .

         A  natureza  é  aí  enfocada como  fator principal e condicionante da  felicidade a gerar , pródiga , a certeza  da  sobrevivência. Nas  descrições , o elemento  natural  toma relevo já  na viagem  dos  três personagem  desde a  taba  dos  tabajaras  até  a  costa  cearense .  E  Iracema , sempre  apresentada em  comunhão  com a natureza , aparece livre a correr  pelas campinas a se  banhar na  lagoa Porangaba , a  colher frutas , a fabricar  a  bebida com o coco e  mel  de  abelha .

         A  realização  plena dos  ideais  expostos  através  dos  personagens  se consuma  na  figura  do  filho  do  casal , o  “ primeiro  cearense “  que ,  nascido  naquelas  terras , terá  o berço como  motivo  do  sentimento  patriótico .
         Em  Iracema , os  elementos  ocupam  um  primeiro plano  a  serviço  da  caracterização  do  heroísmo  do índio  que  se  concentrará na  abdicação  dos preconceitos  da  raça  em  favor  de um sentimento unificador  de povos . A  força  sustentadora  da luta não será a audácia e a coragem de guerreiros  a  combaterem inimigos para  a  conquista do  amor  da  amada ;  residirá , sobretudo , na faculdade  de união  de  seres  em  que  raças  se  fundem  num ato  de   confraternização .

       O Romance  Iracema é  considerado um poema em forma de prosa, com características épicas, em que tanto Martim como Iracema são heróis. Além disso, o livro é escrito após a regularização da colonização do Ceará. Todo esse cenário de lendas, de amor proibido, serve para acontecer o nascimento do primeiro filho da miscigenação entre o branco e o índio. Assim, o índio é visto com bons olhos ufanistas e representantes da cultura brasileira.

BIBLIOGRAFIAS   CONSULTADAS  :
 PIRES  ,  Maria  Lúcia  Soares  . “  Artigo  sobre  “ IRACEMA “  de  José  de  Alencar .                                .                                                       Coleção  Jabuti  , 2ª. edição , S. Paulo , 1970 .
VERÍSSIMO , José  . “  História  da  Literatura  Brasileira “ .  5ª. Ed.  Editora  José  Olympio ,
                                                Rio  de  Janeiro  ,  1969 .
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