Ele apareceu cansado, fraco, quase sem voz, pedindo ajuda. Sentou-se no banquinho do outro lado da rua com um olhar perdido de quem já não espera mais nada, o verdadeiro retrato do fracasso, do desespero. Disse que não comia há três dias e estava sentindo-se muito fraco. Pedi que esperasse um pouco e fui até à cozinha ver o que poderia fazer.
Esquentei o arroz, e a ele juntei um bom pedaço de empadão de bacalhau e levei tudo quentinho para o rapaz. Enquanto ele comia, observei seu rosto magro e pálido, seu corpo esquelético embora mostrasse ainda traços da juventude. A droga o aprisionava promovendo a decadência do seu corpo. Foi então que lembrei-me de Jesus que foi também açoitado, sacrificado não pelas drogas mas pela “droga” do ser humano que até hoje não se compadece do seu irmão e se preocupa somente em julgá-lo Ali diante de mim, estava uma pessoa açoitada pelo vício crucificada por muitos e acorrentada a uma cruz que já não conseguia mais carregar....
Olhei mais uma vez para ele que terminava a refeição e lhe ofereci uma garrafinha de água que bebeu rapidamente e como das outras vezes que aqui esteve, sorriu, agradeceu-me e se foi...
As pessoas que comigo estavam olhavam em silêncio vendo ele se afastar, agora, com passos mais firmes e refeito do desânimo e fraqueza de instante atrás. Percebemos que ele não estava drogado. Era apenas fome, fraqueza, impossibilidade de abandonar o vício ou quem sabe a falta da droga?
À medida que ele se afastava, fiquei pensando: será que numa Sexta Feira Santa, à noite, isso foi proposital?
Será que me esqueci de orar o suficiente neste dia, que não priorizei no silêncio e a reflexão e esta pessoa me foi enviada para que eu me lembrasse do sofrimento do Cristo? Não tenho a resposta e nem descrevo esta situação para expor-me como alma generosa ou caridosa. Sei que devemos fazer o bem e não olhar a quem e anuncia-lo aos quatro ventos não faz o meu estilo.
Só senti necessidade de dizer que Jesus aparece à nossa porta todos os dias como homem, mulher, criança, e cabe a cada um de nós reconhece-lo, ajudar sem perguntas ou acusações, pois a mim não importa questionar o que os outros fazem de suas vidas. A mim, importa o que eu faço da minha vida, dos meus dias e da minha consciência.
Bom feriado, Deus abençoe a todos.