25/08/2020 às 18h53min - Atualizada em 26/08/2020 às 11h05min

Ruínas do antigo orfanato escondem histórias emocionantes

Instituição marcou a vida de muitos leopoldinenses

Luciano Baía Meneghite
Foto: Luciano Baía Meneghite/Arquivo
Aos pés do Morro do Cruzeiro, um casarão em ruínas, escondido pela vegetação é um simbolo de uma Leopoldina que vai sendo apagada com o tempo. Alí gerações de crianças, vitimas das profundas injustiças sociais de sempre, encontraram abrigo e carinho. Muitas conseguiram vencer as dificuldades impostas e formar uma familia. Outras não tiveram o mesmo fim e há aquelas de quem ninguém nunca mais ouviu falar.
 


O casarão do Orfanato Lenita Junqueira aos pés do Morro do Cruzeiro - Década de 50/60 do século XX 
(Fotografia: Autor desconhecido, gentilmente cedida por Nisley Machado Soares)


Criado por influência do padre italiano Julio Fiorentini em 1922, como Patronato para meninas carentes nas terras que pertenceram à antiga Fazenda da Grama, uma das primeiras criadas em Leopoldina no início do século XIX. O Orfanato Lenita Junqueira foi inaugurado de fato em 24 de maio de 1946. O empresário Ormeo Junqueira Botelho foi seu provedor por muitos anos. Tal responsabilidade de manutenção passou a conselheiros e herdeiros.
 

Dr. Ormeu, irmã de caridade e meninas em brincadeira de roda no pátio do orfanato num registro para a Revista Rotária    na década de 50

 
No primeiro piso do casarão também funcionava escola pública primária aberta às demais crianças de Leopoldina.

1949 - O Rotary Clube Leopoldina, faz a doação de uma máquina de costura ao orfanato. Presentes  além da Madre Carmelita e órfãs internas da instituição, os rotarianos, Lélio Lara, Job Nogueira, Ormeu Junqueira Botelho, Joaquim Custódio Guimarães, Aguinaldo Moreira da Silva e Henrique Valdovinos.
( Fotografia gentilmente cedida por Maria da Glória Costa Reis )


Festa Junina do Orfanato Dona Lenita Junqueira 1958/59. Em destaque, Sueli Marinato e Terezinha de Jesus Meneghite, alunas da escola primária que funcionava na sede do orfanato  
( Fotografia - Álbum de família )

No inicio dos anos 2000 não chegavam a dez o número de meninas assistidas pelo Instituto Lenita Junqueira, seu nome oficial. Com o antigo casarão bem deteriorado e não recebendo manutenção adequada, o orfanato foi sendo transferido para casas alugadas, permanecendo um bom tempo na Cohab Velha e funcionando por último na rua Tiradentes, próximo à Praça do Urubu.

Com a extinção da instituição, houve alguma polêmica entre os antigos responsáveis pelo orfanato, que teriam defendido mudanças no estatuto referente à destinação do patrimônio; o terreno de 115 mil metros quadrados no entorno da sede e outras propriedades menores.  A provedoria da Casa de Caridade Leopoldinense, que tinha à frente José Valverde Alves, defendeu o registrado nos estatutos originais de que uma vez extinto o orfanato, seu patrimônio seria revertido para a Casa de Caridade Leopoldinense, o que acabou ocorrendo em 2013.
 
Recentemente o hospital colocou à venda parte do terreno, mas ao que parece, não apareceram interessados.

Mesmo muito deteriorado, não é impossivel visualizar a reconstituição do imóvel  e do seu entorno. Ali daria um lindo parque, com trilhas de caminhada entre outros atrativos, quem sabe até gerando renda para o hospital. Poderia ser a sede de algum órgão governamental ou outra destinação que não destrua o visual das encostas do Morro do Cruzeiro que deveria ser tombada como patrimônio natural.
 
 Enquanto não é decidido o que fazer no local, resta relembar sua história.  

Mas mexer num passado difícil de abandono e de miséria não é fácil pra muitos e é compreensível que poucas pessoas se disponham a falar. É mais fácil reconstituir a história do orfanato através de depoimentos espontâneos de quem estudou no pré-primário que lá funcionava, de antigos funcionários ou amigos dos residentes.

 
Lembranças do
 Orfanato  



Rosely Jesus- Atualmente morando em Varginha


Eu morava lá na época da Tia Nega, ela era branca do cabelo branquinho e chamava Zeferina Cardozo Maia.(Casada com Chico Maia). A Luzia era da minha época, como gostava dela. Que saudade imensa! Gostaria tanto saber o paradeiro dela. Eu lembro que a Tia Nega morreu no nossos braços.

Vicentina Oliveira, uma das últimas moradoras do orfanato

Fui morar lá no ano 2000, ao nove anos de idade e sai do orfanato (Já em outra sede) em 2012. Uma coisa que me marcou é que cada crianca tinha um padrinho, que no final do ano trazia presentes e passavam o dia inteiro lá com a gente. Saudades também que eu tenho lá, era  dos pés jabuticabas que a gente, podia subir e comer. Eu só tenho a agradecer o fato de ter sido resgatada e ter ido morar lá no orfanato. Hoje eu tenho uma familia linda.
                                                                         
  
Cida Lamoia


Me lembro de alguns meninos como o Pelé, que criava cabritos levando-os a pastarem nos arredores da rodovia, Tico e Dario,filhos do Sr João Lindolfo que tinha mercearia na casa dele mesmo, Tito que morava no inicio da Vila, José Luiz “Tebano” e sua irmã Léa, Pirely e sua irmã Sirlene “Piana”.

Lembro-me de todas as professoras: Dona Sebastiana “D.Taninha”. Que delicia de criatura. Na hora da rodinha, onde contava historias, era uma disputa ferrenha pra poder ficar penteando os cabelos dela. Fecho os olhos e sinto a textura deles. Dona Olga Ladeira, com unhas sempre bem feitas e grandes, pele do rosto clarinha; Dona Ana Maria Locha, esguia e pura meiguice, professora do meu segundo ano. Casou -se próximo a esse ano; Dona Maria José Galito, linda, também gostava de esmalte vermelho.Sempre rindo de alguma coisa. Casou-se também nesse período. Quase morremos de alegria quando nos disse que também seria nossa professora da quarta série. Ao final do dia tinha sorteio (sempre tumultuado) para ver quem carregaria seu balainho de taquara até chegar na porteira. Balainho era o Top da época. Meu Deus, quanta lembrança! Desculpem-me, estou realmente emocionada e empolgada.

Toda semana ajudavamos a descarregar um caminhaozinho cheio de legumes. Plantei uma árvore em par com o Valter “Tito” e ela esta lá, linda!

Como já procurei foto desse pedaço mais lindo da minha infância! Emocionada! Obrigada por estar nos presenteando com lembranças inesquecíveis ! Me lembro também que nos fundos mais desapegado da casa moravam um casal do qual só me lembro do nome dele,Pedro Pensone. Casal lindo amantes de Rosas. O Jardim era um mimo. Também tinha Dona Abigail que vendia pastéis fresquinhos, levávamos por uma portinha no final do pátio! O auditório,jogos de queimada, lindo pé de abil no Centro do pátio. Me lembro que para termos ascesso ao pátio e cantina, tínhamos que passar por um corredor escuro e estreito ( pequeno mas meio assustador). Maria das Graças, internata e amiga de sala, por onde anda?


Ana Maria Mamede


Estudei no orfanato na época das alunas internas e externas.  Como eu morava perto, meus pais optaram por me matricular no orfanato D Lenita Junqueira,ensino ministrado por madres ,metodologia que hoje reconheço que muitas escolas deveriam adotar. Lembro me  que todas as alunas tinham um ábaco,excelente material pedagógico para aritmética e matemática ,o livro As Mais Belas Histórias era o que usávamos na alfabetização. Saudades destes tempos que marcou minha infância. As madres foram embora e meus pais me matricularam no Colégio Imaculada Conceição de Leopoldina. Quase morri pois a falta de afetividade no imaculada era enorme ,mas continuei lá e fui me adaptando mas o Orfanato deixou lembranças inesquecíveis em minha memória!




Maria do Carmo Moraes


“Fico triste pois cedo, cedo houve muitas disputas por este nosso patrimônio. Era um lugar lindo, ainda tenho na memória as caminhas das criancas, parecia conto de fadas. As missas eram em latim e nós, moradores da imediações éramos muito bem acolhidos pelas freiras que ali viviam. Pena, que não sabemos o motivo que as levaram a abandonarem um trabalho de acolhimento a todas as crianças abandonadas. Além de frequentar este casarão acabei também dando aulas neste lugar tão lindo! Isto ninguém apagará de minhas lembranças.”
 

Célia Campanha Muniz


Aos domingos íamos à missa às 7 horas da manhã eu minha irmã Carminha. As meninas do orfanato assistiam a missa depois tomavam café. Eram bem cuidadas. Quando iniciamos nosso círculo bíblico fizemos festa de fim de ano eu com nossa turma. Levamos presente para as crianças, bolo,refrigerante foi uma confraternização muito linda se não me falha a memória foi nós anos 90. Logo depois levaram as crianças e adolescentes lá para a COHAB. Me lembro que fomos lá uma vez nas vésperas do NATAL. Depois perdemos o contato. Hoje tem uma das internas que trabalha na APA. Vejo sempre quando ela vem bem cedinho para o serviço. É assim tudo que é bom em Leopoldina acaba. Não temos memórias. É uma pena ver tudo acabar e ninguém faz nada para conservar.


O segundo andar do prédio desabou quase totalmente.  (Foto: Luciano Baía Meneghite)

Há luz no fim do túnel da memória? (Foto: Luciano Baía Meneghite)

 Encostas do Morro do Cruzeiro - Um local que poderia ser reflorestado e transformado em um parque
(Foto: Luciano Baía Meneghite)
 
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