19/07/2020 às 18h41min - Atualizada em 19/07/2020 às 18h41min

OS BONDES CARIOCAS EM MINHA VIDA

Algum internauta me mandou várias fotos do Rio antigo e dentre elas havia a de um bonde. E de bondes algumas histórias então me vieram à mente.
 
Hoje caminhando celeremente para acabar, os bondes eram meu meio de transporte favorito no Rio de Janeiro nos anos 57/62.
 
Somente por ficar estafado após 8 horas de trabalho no Banco Nacional e 4 horas de aula na Faculdade do Catete, é que eu me assentava nos bondes, apesar do trajeto curto entre a Rua do Catete e o Largo da Glória, onde eu descia para subir a pé a Cândido Mendes para chegar até o 207, apartamento onde eu morava na Rua Hermenegildo de Barros, número 8.  Não foram raras as vezes em que cochilava/dormia e os livros caiam de minhas mãos, assustando-me, ocasião em que alguns passageiros costumavam rir e outros se mostravam condoídos de minha aparência cansada.
 
Salvo à noite, eu muito andava de bonde no estribo. Coisa de estudante, hábito de muitos, um superficial exame de consciência me determina admitir que era pela facilidade de neles viajar sem pagamento da tarifa, pois o dinheiro era muitíssimo curto. Eu observava onde estava o cobrador e subia no estribo distante dele. Quando o cobrador estava se aproximando, eu descia e pegava o próximo bonde, também longe do cobrador. Às vezes tinha que descer e subir e descer repetidamente até em pequenos trajetos. Tal procedimento nunca me causou vergonha ou remorso, vez que, talvez (eu escrevi talvez !) com raríssimas exceções os cobradores recebiam várias passagens e somente registravam algumas. “Quem rouba ladrão tem 100 anos de perdão”, era um adágio já em uso à época e que era justificativa para muitos, inclusive eu, procurar não pagar viagem de bonde
 
São muitas as histórias que envolvem o uso de bondes. Para ir à praia nas manhãs de domingo e nos feriados, sempre no Posto 2 de Copacabana, eu tinha o hábito de passar pomada Minâncora no nariz, usando-a como protetor solar. De uma feita, cansado, ao invés de fazer o sobe/desce de sempre, assentei-me. Quando o cobrador chegou, eu disse que já havia pago e ele foi incisivo: “não recebi de ninguém de nariz pintado".
 
Nunca tive habilidade para pular do bonde em movimento, o que muitos faziam. Em minha adolescência em Miraí, eu era muito colega de um jovem carioca, que passava férias na casa de dona Aracy Tenório e do Dr. Luiz Alves Pereira. Ele se chamava Luiz Roberto e tinha o apelido de Gilda. De uma feita, ainda adolescente, eu fui passar férias no Rio na casa dele na Rua República do Peru, em Copacabana. Sua turma, eu no meio dela, saiu para andar de bonde. De repente, “Gilda” e sua turma, todos cariocas escolados, pularam de supetão com o bonde em alta velocidade e vi-me compelido a pular também, única alternativa para não me perder do grupo, já que não sabia o endereço dele e o dinheiro no meu bolso era exatamente zero. Foi mais uma vez em que corri risco de morte (as anteriores foram em Miraí). Por centímetros não sentei meu rosto em um poste, mas “felizmente” apenas fui ao chão e esfolei bastante mãos, cotovelos e joelhos.
 
Havia um cobrador muito divertido, que, enquanto corria o estribo fazendo os recebimentos, dizia em voz bem alta “passageiros que não foram pagos, tenham a bondade”.
 
A palavra bonde sempre me remete, madrastamente, para um “causo” inapagável em minha memória. Do Calabouço saíamos, eu e o Adalberto Cortines Laxe (vulgo Fizinho, ou Gilete, ou Chulé, depois médico em Cataguases, onde faleceu em agosto de 2010) quando, na Cinelândia, vimos um aglomerado, paramos e constatamos que estavam contratando figurantes para uma cena do filme “ORFEU DO CARNAVAL”.  Entramos em fila para nos inscrever como candidatos e nela ficamos sabendo que pagariam 300 da época. O Fizinho foi aceito imediatamente e eu fui recusado, pois minha camisa era branca e queriam vestes coloridas. Cheguei a dizer que compraria uma camisa, dispensaria o recebimento do cachê, mas fiquei de fora.
 
Sempre que ouço qualquer comentário sobre o filme, renasce em minha memória uma frustração arrasadora por não terem aceitado minha proposta, pois o Fizinho apareceu (e em replays sempre aparece) em posição de destaque no estribo do bonde, em plena Cinelândia, sambando e cantando, em belo close no filme que foi exibido em vários países e até ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro no festival de Cannes.
 
Assim como meu amigão Heitor Ferreira de Carvalho se frustrou com as diminutas cenas em que apareceu no filme Juventude sem amanhã, também me frustrei por não ter sido figurante no Orfeu do Carnaval.
 
Pena que agora os bondes só existam rumo ao bairro de Santa Tereza e que haja histórias de assaltos até com morte, afugentando de mim o desejo de passear, com pagamento integral do preço, nos bondes que tantas lembranças me trazem da juventude.
 
Leopoldina, 14.03.2012
Nelsinho.
 
 
 
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