Tenho poucas fotos de criança, mas tenho bem mais que meus pais e bem menos que meus filhos. Nunca vi uma única foto do meu pai criança. Da minha mãe, talvez uma ou duas. Máquina fotográfica, na década de 80, era artigo de luxo, pouquíssimas famílias tinham. Sim, era um bem de família, de uso coletivo (nem tão coletivo). Normalmente o domínio, a guarda e o manuseio, ficava a cargo de um “escolhido”, aquele familiar mais cuidadoso, com mais habilidade e jeito para operacionalizar o aparelho.
Quando criança, fomos (eu e meus irmãos) fotografados na maioria das vezes por terceiros. Ora pela tia que morava na cidade grande e vinha nos visitar nas férias, ora nos aniversários dos parentes mais abastados e algumas poucas vezes por “retratistas” profissionais da cidade (são as melhores fotos). Os registros fotográficos eram uma loteria. Não se sabia ao certo como ficaria aquele registro na revelação da foto. Sim, a foto ia para a revelação - e isto também tinha um custo elevado que não cabia no bolso de qualquer um. Ver a foto revelada era uma euforia, era quase um orgasmo. Mas também poderia ser uma tragédia para aquele que saiu de mau jeito no momento do click. Eu, confesso, tenho uma foto com meus irmãos e primos que saí fazendo uma careta... foi por muito tempo um trauma!
Meus filhos ainda pegaram a época das máquinas analógicas, aquelas que precisam ser abastecidas com o rolo de filme fotográfico – que pasmem, ainda existem para comprar. Eu mesmo consultei agora na internet, por curiosidade, e eis que encontrei o seguinte anúncio no Mercado Livre: Rolo De Filme Fuji Vencido 35mm Iso 100 Camera Analogica por R$ 40,00 (detalhe para o “vencido”).
Agora está tudo no celular, junto com a internet, aplicativos, telefone, filmadora, jogos, etc... Cada um com o seu. Não existe o uso coletivo-familiar do aparelho, isto é impensável! Também não existe o “revelar”, acabou a poesia! Fotos são tiradas com a mesma facilidade e velocidade que são deletadas. Quando muito raramente, são impressas por alguns cinquentenários saudosos dos tempos analógicos. E, mesmo assim, são editadas para melhorar a luz, a cor, as rugas, enfim, a realidade! Fui a uma loja com os arquivos de fotos selecionadas para imprimir e o atendente começou a “trabalhar” nas fotos... aproximar, clarear, escurecer, embaçar o fundo, ajustar nitidez, brilho, contraste, saturação, enfim, uma infinidade de recursos disponíveis nos editores de fotos que chega a causar labirintite.
Não me oponho à tecnologia, mas também não sou afeita ao ilusório, ao disfarce, ao artificial, aos filtros. Eu acredito, e tenho provas, de que muitas destas edições são desnecessárias para melhorar a foto... uma bobagem. A foto vai melhorar sozinha lá no fundo daquela gaveta do armário da sala, no tempo dela. Tem sido assim sempre. Fotos antigas são apaixonantes, são registro fiel da história e assim devem permanecer.
Helenice Fonseca
03-06-2024