20/12/2024 às 08h44min - Atualizada em 20/12/2024 às 08h44min

É promessa!

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Helenice Fonseca
Tempos atrás passei por um período conturbado que envolveu a família numa questão de saúde. Meu pai precisou ficar hospitalizado por quase 2 meses em JF para uma cirurgia cardíaca de peito aberto. Depois da cirurgia foram mais outros tantos meses de recuperação lenta e gradual... todo dia com sinal de melhora. Graças a Deus!

Ficamos todos os 5 filhos envolvidos no acompanhamento e na recuperação do meu pai que sempre esteve sob os cuidados de minha mãe. Um período difícil que cada um, a seu modo, vivenciou e empregou a dedicação e auxílio necessários e possíveis àquela situação.

Apesar do revezamento que administramos bem no período de internação hospitalar, eu fiquei mais tempo fora da minha rotina normal de casa/trabalho. Meu ritmo profissional e minha dinâmica doméstica me permitiram dispensar maior dedicação ao meu pai e minha mãe naquele momento. Mais ou menos dentro daquele ditado popular: Deus dá o frio conforme o cobertor. Seguimos o dia a dia, cada qual com sua agonia e sobretudo com esperança e fé.

Nesta época eu já tinha adotado o corte um pouco mais curto dos meus cabelos e me vendo diante de todo o contorcionismo necessário para dar conta dos compromissos profissionais (quase sempre on line) e a função de acompanhante hospitalar, não tive tempo para salão de beleza. Cortar cabelo, pintar, escovar, hidratar... ahhh isto requer disponibilidade na agenda. Conclusão: deixei de pintar e cortei bem mais curto no estilo que chamamos de “nuca batida”. Nada mais prático para uma mulher atarefada!

Passado o momento mais crítico, fui tomada pelo gosto da praticidade e despreocupação com os cabelos brancos. Então decidi: não pinto mais! A natureza é poderosa e lutar contra ela será em vão! Foi, e ainda é, libertador. Embora muitos não entendam, sobretudo os profissionais da beleza, as amigas do salão, as tias mais vaidosas, etc...

Inumeras vezes fui interpelada de maneira incisiva:

- Vamos pintar hoje neh?

- Não, vamos só cortar!

- Voce é tão nova, não combina com cabelos brancos. Vamos pintar? É rapidinho!
 
E por aí o assunto seguia com as mais variadas tentativas de convencimento à minha rendição à tinta capilar. Até que um dia menos calmo para mim, respondi: Não posso pintar, fiz promessa! Assunto se encerrou alí.

Promessa é algo tão poderoso que ninguém se aventura a retrucar!

Enfim, livre novamente!

Helenice Fonseca – 18/12/2024

“– Ela é tão livre que um dia será presa.
– Presa por quê?
– Por excesso de liberdade.
– Mas essa liberdade é inocente?
– É. Até mesmo ingênua.
– Então por que a prisão?
– Porque a liberdade ofende.”


(Clarisse Lispector)
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