28/01/2025 às 16h33min - Atualizada em 28/01/2025 às 16h33min

Respeito, no mínimo!

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Helenice Fonseca
Estavam a nadar numa piscina retangular grande, um rapaz e uma mulher.  O rapaz nadava no sentido do comprimento, do raso para o fundo e vice e versa. A mulher no sentido da largura (de aproximadamente 15 metros) na parte mais funda da piscina. Ela privilegiou nadar sem obstáculos, visto que nesta parte não havia ninguém. Ele preferiu ganhar a distância (em torno de 25metros) para valorizar o exercício físico, ainda que tivesse que desviar de crianças e adultos que aglomeravam a parte rasa da piscina.

Enquanto nadavam, havia entre eles uma espécie de sincronicidade nas idas e vindas afim de  evitar o choque. De certo, a mulher conseguia dar 2 voltas, enquanto o rapaz dava uma volta, em razão da diferença de distâncias. Esta sincronia me faz lembrar agora os problemas aplicados nas aulas de física do ensino médio: “considerando a distância de 25metros para o nadador 1 e a distancia de 15 metros para o nadador 2, ambos nadam na mesma piscina partindo do ponto A e B, respectivamente, com o mesmo tempo de partida porem em sentido perpendicular um em relação ao outro, e que o nadador 1 faz a volta completa em 65 segundos e o nadador 2 faz a volta completa em 80 segundos; diga em que volta os nadadores irão se chocar no meio da piscina?”. Seria mais ou menos isto... e eu vejo na minha tela mental o saudoso Prof Waldir desenhando a giz no quadro negro, o retângulo da piscina, os pontos de referências, os nadadores, o pontilhado do trajeto de um e outro e uma fórmula milagrosa, porém óbvia, para executar os cálculos e enfim, obter a resposta!

Mas voltando ao meu sentido inicial e falar sobre o respeito, enquanto nadavam por quase uma hora, os dois personagens se entreolhavam quase que tempo todo a fim de não serem o obstáculo para o outro desviar. De tal forma que havia uma clara comunicação não verbal entre eles, que se estabelecia pelo mínimo movimento de cabeça sinalizando ao outro “estou indo” ou “pode ir”. Um não via o olhar do outro, em razão dos óculos de natação, também não havia expressão facial, visto o cansaço que o exercício lhes impunha. Era somente aquele gesto de permissão, quase imperceptível a terceiros, que se faziam com a cabeça.

Este mínimo movimento representou entre os dois, completamente desconhecidos, um gesto mútuo de respeito, empatia e gentileza, provando que é simples praticar a boa convivência se se pautar nestes pequenos detalhes que fazem toda diferença para a vida em sociedade.

Não demorou muito, e ambos deixaram a piscina e seguiram seu rumo, um pela escada na parte rasa da piscina e outra pela escada do outro extremo, na parte mais funda. Saíram sem que um conhecesse o outro e certamente sem que pudessem se identificar fora da piscina, sem óculos e sem touca! Talvez se reconheçam, por acaso do destino, em algum outro momento pelo pequeno movimento de cabeça e grande gesto de respeito! Somente por isto... e que não é pouca coisa.

Helenice Fonseca – 26/01/2025

“Amar e mudar as coisas me interessa mais” (Belchior)
 
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