01/09/2025 às 09h49min - Atualizada em 01/09/2025 às 09h49min

Minas são muitas

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Dora Stephan

"Minas são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais", escreveu o aclamado escritor João Guimarães Rosa. Mineiro de Cordisburgo, cidade que abriga a Gruta de Maquiné , resumiu em poucas e sábias  palavras,  como nenhum outro autor, a diversidade econômica, política, social e cultural de nosso estado. Muitas vezes, conhecê-lo é como adentrar na obra de "Guima": seus cenários, suas personagens, seu vocabulário, seus sotaques... E uma boa maneira de conhecer as "muitas Minas" é adentrar no trem que faz a rota Belo Horizonte - Vitória, esta cidade já no Espírito Santo. Operado pela Vale Mineradora, a locomotiva rasga uma boa parte das Gerais, aportando, durante todo o trecho, em nada menos do que 31 estações ou paradas. Em boa parte delas, são feitas conexões para outras  cidades mineiras.

Paisagens diversificadas, que podem ser vistas ao longo do percurso, revelam a diversidade geográfica do estado.

Tão logo o viajante sai da capital mineira, passa por Sabará, uma das cidades históricas de Minas Gerais. Um pouco mais à frente, temos o visual das minas de minério de ferro de Barão de Cocais, cidade que faz parte do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais. Mais adiante, passamos por cidades das siderúrgicas, como Ipatinga e Timóteo, onde se pode ver a fumaça poluente típica deste tipo de indústria. Na rota do trem, encontra-se Itabira, terra do poeta Carlos Drummond de Andrade. Ao nos aproximarmos de Governador Valadares, já é possível ver algumas nesgas do Rio Doce, que nesta época de clima seco, rarissimamente se mostra caudaloso. Passamos ao longe pelas terras dos Krenak, índigenas que vivem às margens deste rio. A  partir de Resplendor, o Rio Doce é represado para se transformar em um belo e extenso lago que se estende até Aimorés, já na divisa de Minas com o Espírito Santo. Um visual deslumbrante, com certeza a parte mais bonita da viagem. 

Ah, quantas histórias e memórias guardam aquelas cidades mineiras... Pena que na maioria delas o trem passa ao longe, nos fazendo imaginar como elas realmente são. 

O chacoalhar do trem nos remete a lembranças vagas e esparsas, bem como  ao repertório musical do mineiríssimo autor e compositor Milton Nascimento, o nosso Bituca. Impossível não lembrar do trecho da música Encontros e Despedidas, feita em parceria com Fernando Brant, outro compositor  mineirissimo. Baixinho, a gente cantarola: "O trem que chega é o mesmo trem da partida..." Lá, lá, lá, lá...

Todos os dias a vida se repete na estação, pelo menos naquelas, onde o trem BH-Vitória e vice-versa passa todos os dias, infalivelmente. Como nos foi informado, é o único trem de passageiros, de longa distância,  que circula diariamente, em solo brasileiro. Ouço dizer que em alguns municípios existentes ao longo da via férrea  do referido trecho o trem é o meio de transporte mais viável para se chegar lá.

Para fazer o percurso todo, leva-se o dia todo e um pedaço da noite - cerca de 14 horas. Desculpem-me pela expressão:  Haja bunda! Mas vale a pena, até porque o trem é bastante confortável. 

Certa vez vi em uma propaganda  de uma agência de turismo uma frase cujo teor exato eu não me lembro, mas que sugeria   que as pessoas sempre saem transformadas após uma viagem. Nem sempre conseguimos detectar as transformações mais profundas que uma simples mudança de local pode causar, mas de imediato posso afirmar que, depois dessa viagem,  me transformei numa mineira mais mineira ainda, daquelas que fala trem, uai, cadin... E que ama doce de leite, pão de queijo, broa de milho, goiabada com queijo e, claro, Guimarães Rosa, autor que deslindou a alma de Minas Gerais. 

Minas são muitas! E eu quero conhecer todas!!!

 

 

 

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