Nos últimos tempos, talvez pouco mais de um ano ou dois, tenho tido sono mais dificultoso. Acordo muitas vezes durante a noite e na alvorada do dia, os sonhos me perturbam. Sonhos de todos os tipos, tempos e temas. Uns me trazem lembranças de diferentes fases da vida, outros me servem como lembretes e avisos para algum compromisso, alguns poucos me revelam possibilidades de soluções para questões do trabalho e ainda tem aqueles sonhos que não têm a menor conexão com a realidade, como por exemplo investir R$8milhões no Botafogo para receber 10% de dividendos – não tenho a mais pálida ideia de onde pode ter saído este sonho, não entendo NADA de futebol e nem sabia que o Botafogo passou a ser uma Sociedade Anonima de Futebol-SAF, como me explicou Gilmar (meu marido). Enfim, durmo sono picado durante a noite e tenho sono agitado no amanhecer, o que me faz acordar com a cabeça cheia e ainda cansada. Às vezes, o que me vale é o cochilo de 30 minutos depois do almoço. Meio torturante – só 30 minutos!
Me ocorreu, em algum sonho, a ginástica que era colocar o carro na garagem do prédio que Gilmar morou no centro de Juiz de Fora. Na verdade, Gilmar não tinha carro e cedia a vaga para um vizinho com 2. Quando cheguei na vida dele, duas décadas atrás, eu tinha carro e sempre o deixava estacionado na rua, até que um dia ele se convenceu que o nosso relacionamento tomava o rumo de ser duradouro e então pediu ao vizinho a vaga de volta... e que vaga!
A garagem era numerada e bem organizada. Algumas poucas vagas prendiam outro carro, mas neste caso eram dos apartamentos de cobertura que tinham direito a duas vagas, de modo que o estresse de estar com o carro preso na garagem se resolvia em família. Eram duas fileiras de carros paralelos com a via de circulação entre as fileiras. Nossa vaga era a última da fileira à esquerda (de quem entra), lá no final da garagem, num canto. De um lado, cercada pelo muro do imóvel e de outro por uma coluna espessa, de modo que o carro não entrava de frente, apenas de ré, e não havendo espaço exclusivo para manobra, era preciso manobrar sobre as vagas desocupadas dos outros carros, de tal maneira que sempre contávamos com esta sorte. Era uma “roleta” chegar na garagem cheia e não conseguir entrar na vaga e sofrer para sair. Depois de tanto enfrentar esta incerteza, resolvi mudar a estratégia – passei a entrar de ré desde o portão lá fora e resolvido o problema, foi bem mais fácil. Os porteiros abriam o portão meio incrédulos. Nas primeiras vezes chegaram a me interpelar lá na rua se eu estava segura de levar o carro de ré até o fundo da garagem, visto que não era um trajeto retilíneo, tinha umas “dobras” no caminho. Mas logo se acostumaram com a minha estratégia, que funcionou bem até o final, quando nos mudamos de lá.
Lembrar disto agora me fez pensar como é incômodo para mim, não caber em algum lugar. Eu procuro me ajeitar sempre para caber da melhor forma, sem muito sacrifício meu e sem abusar da posição dos outros. Tenho horror só de pensar na possibilidade de ser ou parecer inconveniente ou inoportuna em qualquer circunstância, definitivamente não é um lugar confortável. Quando me percebo minimamente nesta situação eu procuro manobrar e reavaliar minha posição. Nem sempre é fácil, é preciso reconhecer e considerar alterar rota ou mesmo abandonar a “vaga” que não te cabe. Muitas vezes insistimos por algum tempo, por algum propósito, por apego e até mesmo por esperança... mas chega um momento que: ou cabe ou cai fora! E, acredite, em ambos os casos pode ser libertador! E isto vale para tudo, sobretudo para o modo como você se relaciona com as pessoas.
Pois bem, o ano novo já começou a sua contagem regressiva... agora só restam 361 dias e algumas horas e a contagem não para. É melhor estar onde te cabe com conforto, onde você pode entrar e sair com segurança, onde não há pressão, onde há respeito, onde há compreensão, onde você é ouvida, onde você se sente bem, onde você é bem vinda, onde sua ausência é sentida com lamento, onde você não é agredida sob nenhuma forma, onde você compartilha com prazer. Porque no fim de tudo, é isto que faz a gente se sentir bem, é isto que importa!
Helenice Fonseca – 04/01/2026
“Só mesmo a dor me acanha
eu tento compreender
tudo que eu quero ter
cabe em minhas mãos
sem me atormentar”
(Celso Adolfo)