Pensei em escrever alguma coisa sobre Leopoldina neste 27 de abril de 2026, mas acabei não o fazendo. Jamais usaria programas que criam textos automaticamente e publicaria como se fossem minha opinião. Por mais bem escritos que sejam, são artificiais, sem a verdade e sensibilidade humanas. Não faz o menor sentido.
Lembrei então de um artigo muito bem escrito pelo José Gabriel Couto Viveiros Barbosa, publicado na edição nº179 do jornal Leopoldinense impresso de 27 de abril de 2011 e ainda atual.
Vale a pena ler ou reler:
Feliz aniversário Leopoldina
José Gabriel Couto Viveiros Barbosa
Parabéns eu não te dou, porque acho que não merece. Mas feliz eu quero muito que você seja, sempre, não apenas em 27 de abril. Pode ser até um pouco de egoísmo meu, mas, como filho seu, necessito de sua felicidade para ter a minha, pois, como dizia Vinícius de Morais, "é impossível ser feliz sozinho". Assim, no que depender de mim, farei de tudo pela nossa "FelizCidade" sua, minha e de todos.
157 anos! Ainda jovem, entre suas congêneres, você deve estar se perguntando por que eu lhe nego os parabéns... Posso dizer-lhe: não processou seu passado violento! Não fez terapia, não se repensou, não se reeducou! Me pergunta o que o ontem tem a ver com o hoje? Somos o resultado de nosso passado, de nossa história. Se você quer se conhecer, olhe para trás. Você nasceu da extinção dos Puris, donos das terras que ocupou a partir de 1830, e enriqueceu com o trabalho escravo, dos negros que você ainda reluta em incluir. Você discrimina seus filhos que não querem seguir o modelo tão restrito de seu conservadorismo matriarcal. Você quer filhos "normais", mas esquece que ser normal é ser escravo da norma que você impõe, é ser marionete e incapaz de criar a beleza da própria vida, quanto mais diversa, mais rica.
Sabe, Leopoldina, você poderia valorizar seus momentos de glória, levando-os ao conhecimento de seus filhos excluídos, pois todos passam por suas escolas. Você poderia, por exemplo, exaltar as figuras ilustres com quem conviveu, especialmente os artistas: Augusto dos Anjos, Miguel Torga, Humberto Mauro... Outra coisa: por que você toma tanto refrigerante, se as memórias de sua infância estão recheadas do sabor do leite, dos sucos de manga, goiaba, laranja..., e do cheiro de café? Olha as fazendas históricas aí, pra lembrar! Ah, e você também deveria cuidar do que restou da floresta que lhe deu vida e replantar a Mata Atlântica, pois é ainda ela a única que poderá evitar que sinta sede, no futuro. Que sonho seria se você voltasse a ser educada como na época em que te compararam com a deusa grega! Para ser novamente Atenas, Leopoldina, basta apenas priorizar a educação de seus filhos, sem fingimento e pra todos.
Outro dia, conversava com um amigo empresário, amigo antes de ser empresário, também filho seu, que reclamava da falta de compromisso e profissionalismo de seus funcionários... Fiquei pensando: uma população sem qualificação, não teria isso a ver com a sua escola? Minha experiência com ela me fez ver que as coisas lá, geralmente, são feitas só pra constar, pra tirar nota. A vida não está presente. O conhecimento não faz sentido, não está conectado à melhoria das pessoas e do lugar. Assim, o aluno vira um adulto que faz as coisas, também, pra constar, um simulacro, sem compromisso consigo e com o coletivo, sem perspectivas. Sua família também não ajuda. Seja nela ou na escola, se há alguém pra mandar, impor ordens, está criada a fábrica de irresponsáveis. É esse o tom da educação que você dá a seus filhos?
Não sei, mas parece que você não se ajusta. Ao contrário, fica valorizando os personagens mais controversos da sua história! Veja o nome de seus principais logradouros: Barão de Cotegipe - ministro do Império, contrário à abolição; General Osório - militar da sangrenta e covarde Guerra do Paraguai; Presidente Carlos Luz (nome também de sua principal honraria, a comenda Carlos Luz) - político que tentou um golpe na democracia brasileira, contra a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek; Humberto de Alencar Castelo Branco - militar que presidiu o golpe de 1964, levando o Brasil a uma ditadura de 21 anos. Não nega mesmo seu passado escravocrata!
Vive a ouvir seus filhos dizendo que querem ir embora ou assistindo a seu desespero de querer pular do Cruzeiro. Não é à toa! Mas isso não te incomoda? Parece que nunca ou viu falar em protagonismo juvenil, em pedagogia da autonomia, em cidadão participativo, em democracia, enfim! Acho é que você não gosta mesmo desses temas. Talvez atrapalhassem seus relacionamentos interesseiros...
Ouvir sobre isso você ouviu! O José Pacheco, mesmo, da Escola da Ponte de Portugal, esteve aqui umas 3 vezes pra lhe mostrar caminhos e oferecer ajuda, mas você reluta. Vê se ouve e se repensa! Vê se para de esperar! Sai desse imobilismo e age! Dá liberdade e protagonismo a seus filhos, se quer ser feliz! Quem sabe, assim, você venha a merecer os parabéns?