23/04/2017 às 19h15min - Atualizada em 23/04/2017 às 19h15min

Cantinho Gramatical nº 45

WALDEMAR PEDRO ANTÔNIO
     Cantinho  Gramatical  optou  neste  artigo  para  explicitar  um  aspecto  da  língua  portuguesa  que  depende  muitíssimo  de  um  esclarecimento  sobre  o étimo  das  palavras  oriunda  da  língua  latina  classificadas   como :  FORMAS   CONVERGENTES  E  FORMAS  DIVERGENTES .

   FORMAS  CONVERGENTES   são  vocábulos  que ,  partindo  de  étimos  diferentes ,  vieram  a  confundir-se,  em  determinada  fase  da  língua ,  numa  só  forma ,  em  virtude  ou  de  acidentes  fonéticos  de  várias  naturezas,  ou  da  coincidência  formal  de  palavras  hereditárias  e  palavras  de  empréstimo.

  O  fenômeno  da  convergência  é  uma  causa  de  homonímia .  Alguns  exemplos  para  esclarecimento  da  questão  estudada  :  RIO (  substantivo,  de  RIVUS – forma  latina . Ex.  Esse  RIO  deságua  no  mar . )  e  RIO  (  verbo,  de   RIDEO – forma  latina . Ex.  Eu  RIO  muito  , quando ouço  uma  boa  piada . ) ;  SÃO (  verbo, de  SUNT- forma  latina  do  verbo  ESSE .  Ex.  Eles  SÃO  honestos. )  SÃO     (  adjetivo,  de  SANU – forma  latina . Ex.   O homem  SÃO  não  precisa  de  médicos .)  e  SÃO ( forma  reduzida  de  SANTO < SANCTU-  Ex.  Hoje  é  dia  de  SÃO  Pedro .)  .

   A  homonímia  também  pode  resultar  não  da  ação  das  lei  fonéticas  e  sim  da  coincidência  exterior  entre  forma  hereditária  e  forma  de  empréstimo . É  o  que  se  dá , por  exemplos , em  MANGA  (  parte  da  roupa , do  latim  MANICA-  Ex.  A  MANGA  da  blusa  está  rasgada . )  e  MANGA    ( fruto,  empréstimo  ao  MALAIO – Ex.  A  MANGA  dessa  árvore  é  muito  doce .  ) . Em  síntese ,  podemos  afirmar  que  a  convergência  propriamente  dita  é  a  que  resulta  da  ação  das  leis  fonéticas .
   FORMAS  DIVERGENTES  é  o nome  que  se  dá   a  duas  ou  mais  palavras  portuguesas  originárias  de  um  mesmo  étimo  latino .  Exemplos :  SOLITARIU-  deu  por  corrente  popular  SOLTEIRO  e  por  corrente  erudita  SOLITÁRIO .

  As  causas  das  FORMAS  DIVERGENTES  são  :
  1. CORRENTE  POPULAR  caracteriza-se  pelas  palavras  sob  a  ação  da  pronunciação  do  povo ,  tornando , segundo  as  épocas ,  várias  formas  ,  dando  assim ,  origem  a  diversos  vocábulos . Exemplos :    PLENUS  deu  CHEIO  pela  corrente  popular  (  aquela  que  sofre  maior  transformação  fonética  por  estar  em  constante   uso  na  fala  do  povo )  e   PLENO  por  via  erudita (  necessidade  de  restaurar  a  língua )  ;  COAGULARE  deu  COALHAR  por  via  popular  e  COAGULAR  por  via  erudita  ;  STAGNARE  deu  por  via  popular  ESTANCAR  e  por  via  erudita  ESTAGNAR .
     
  2.  CORRENTE  ERUDITA -  Na  época  do  Renascimento,  os  escritores   procuravam  aproximar-se  o  mais  possível  do  tipo  latino  clássico-literário . Daí   a  introdução  de  várias  palavras  em  sua  forma  primeira ,  quando  já  as  tínhamos , modificadas  pela  fonética  popular . Exemplos  : COGNATUS -   COGNATO  ( erudita)  CUNHADO  (  popular )  ;  DIGITALEM -  DIGITAL  ( erudita ) -  DEDAL  (  popular ) .  Há  ainda  palavras  SEMI-ERUDITAS  que , entre  as  formas  populares  e  eruditas ,  encontramos  em  nosso  idioma . São  as  que  , tendo  ingressado  na  língua  por  via  erudita, caíram  depois  no  domínio  do  povo ,  que  lhe  introduziu  algumas  modificações . Ex.  MACULA  >  MÁGOA .
     
  3. CORRENTE  ESTRANGEIRA  -  O  intercâmbio  de  cultura  ,  comércio , etc. , mantido  entre  os  povos ,  fizeram  com  que  muitos  vocábulos  estrangeiros  fossem  admitidos  em  Português , embora  já  possuíssemos  essa  mesma  palavra  na  forma  própria  do  nosso  idioma . Ex.   PLANU-   CHÃO , PORÃO >  formas  populares  , PLANO > forma  erudita  ,  PIANO  importada  do  italiano .   CAPU-    CABO   forma  existente  em  português   ,   CHEFE  importada  do  francês .
De  acordo  com  o  princípio  de  que  as  leis  fonéticas  não  admitem  exceções , não  poderia  haver  divergentes  oriundos  de  causas  simplesmente  fonéticas . Todavia,  como  as  leis  fonéticas  são  leis  históricas  e  não  físicas , devem  ser  formuladas  com  várias  restrições ; isto  é , para  o  mesmo  lugar , a  mesma  época  e  a  mesma  camada  social  as  correspondências  fonéticas  são  regulares .  Não  se  verificando  uma  dessas  restrições ,  a  mesma  forma  originária  pode  sofrer  evoluções  diferentes . Daí  o  fenômeno  da  divergência  para  o  qual  podemos  apontar  três  causas :  a  geográfica , a  cronológica  e  a  social .
  • CAUSA  GEOGRÁFICA .  O  mesmo  étimo  latino  teve  evoluções  divergentes , segundo  as  leis  fonéticas  locais . Assim  do  latim  PLANU- , de  acordo  com  leis  fonéticas  locais , tivemos  o  português  CHÃO ,  o  espanhol  LHANO  e  o  italiano  PIANO .
  • CAUSA  CRONOLÓGICA .  O  mesmo  étimo  latino teve  evoluções  fonéticas  divergentes ,  segundo  a  época  em  que  foi  introduzido  na  corrente  da  língua . Exemplo :  o  tratamento  divergente  do  grupo  consonantal  PL ,  de  PLANU-  , tivemos em  português  CHÃO e  também  PRÃO  e  depois evoluiu  para  PORÃO .  A  divergência  se  explicaria  considerando  CHÃO  mais  antigo  e  PORÃO   mais  moderno.
  • CAUSA   SOCIAL  .   O  mesmo  étimo  sofre  um  tratamento  mais  profundo  nas  camadas  populares   e  mais  leve  nas  camadas  de  alguma  cultura .  Foi  o  que  se  deu  com  MACULA     (  e  outras  palavras  com  U  pós-tônico ) ,  que  se  transformou  em  MACLA >  macha   nas  camadas  populares  e  conservou  o  U  nas  de  certa  cultura . Daí  em  português  MANCHA  e  MÁGOA , por  isso  ,  se  chama  forma  semiculta .
Além  dos  empréstimos  geográficos ,  que  são  os  propriamente  ditos , há  os  empréstimo  culturais  ,  feitos  às  línguas  clássicas , latim  e  grego .  Muitas  formas  divergentes   constam  de  uma  palavra  popular   e  outra  erudita  (  empréstimo  cultural ) .  Exemplos :  ÓCULOS  e  OLHO MÁCULA  e  MANCHA ;  RECITAR  e  REZAR  PLANO  e  CHÃO  ;  PÁLIDO  e  PARDO  etc. ( a  primeira forma  é  erudita  )  .
                          “     VAMOS    PRATICAR   ?  
RESPONDA : 

1 - 
O  que  são  formas  convergentes  ?  Exemplificar .
 
 
2 - O  que  são  formas   divergente  ?  Exemplificar  .                                                                                ________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
 3-  Quais  as  causas  das  formas  divergentes  ?  Exemplificar .
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4-   Como  se  justifica  a  existência  dos  homônimos  na  língua  portuguesa  ?
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Waldemar   Pedro   Antonio                              e-mail  :   wpantonio@terra.com.br               



GABARITO  No.   45
  1.  O  que  são  formas  convergentes ?  Exemplificar .
Resposta :  são  vocábulos  que ,  partindo  de  étimos  diferentes ,  vieram  a  confundir-se,  em  determinada  fase  da  língua ,  numa  só  forma ,  em  virtude  ou  de  acidentes  fonéticos  de  várias  naturezas,  ou  da  coincidência  formal  de  palavras  hereditárias  e  palavras  de  empréstimo.
Exemplos :  SUNT  ( verbo  ser ) /  SANU ( adjetivo )  / SANCTU ( tratamento )  >   SÃO
  1. O  que  são  formas  divergentes  ?  Exemplificar .
  2.  
                3-  Quais  as  causas  das  formas  divergentes  ?  Exemplificar .
Resposta:  CORRENTE  POPULAR  / CORRENTE  ERUDITA / CORRENTE  ESTRANGEIRA  /   geográfica  /   cronológica  /  social .
4-   Como  se  justifica  a  existência  dos  homônimos  na  língua  portuguesa  ?
Resposta: O  fenômeno  da  convergência  é  uma  causa  de  homonímia .
                    
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