26/05/2017 às 15h38min - Atualizada em 26/05/2017 às 15h38min

Cantinho Gramatical nº 50

Waldemar Pedro Antônio
     Lamentavelmente , como   encerramento  desta  série  de artigos  publicados no  site  do  Jornal  Leopoldinense ,    o  Cantinho  Gramatical ,  em  sua  despedida ,  optou  por  uma  breve  visão  sobre  os  recursos  com  a  linguagem  mítica ( poética ) manifestada  no  poema que  é  o  mundo  feito  de  palavras  não somente   para  comunicar ,  mas também  arquitetadas  de  outro  modo , confabuladas  pelo  som , pelo  ritmo ,  pela  estrutura ,  pela  imagem , pelos  significados , redescobrindo  nas  palavras   as  outras  faces  secretas  , como  dizia  Drummond . Estamos  falando  de   ESTILÍSTICA ,  ciência  linguística  que  estuda  os  processos  de  criação  da  linguagem  pelo  homem.  Do  ponto  de  vista  de  ato  linguístico como  termo  de  um  processo  criador ,  devemos , pois , distinguir  duas  disciplinas  correlatas : 1ª. ,  a  que  estuda  metodicamente  os  elementos  da  língua   ou  GRAMÁTICA ;  2ª.  , a  que  estuda  a  linguagem  expressiva  que  se  cria  com  esses  elementos  ou  ESTILÍSTICA . Salientando  que  a  língua  não  exprime  só  o  pensamento  mas  também  os  sentimentos e  as  volições ,  propõe-se estudar  os  efeitos  da  atividade  nos  atos  da  fala ,  os  processos de  que  se  servem  as  línguas  para  deixar  ver  a  carga  emocional  que  tão  frequentemente  acompanha  o  enunciado .

      O método de análise estilística segue inclusive as divisões clássicas da gramática, daí a tripartição em estilística fônica, léxica e sintática , objetivando  realçar  a  expressividade nas  manifestações  poéticas .

Estilística Fônica :  Estuda os recursos expressivos presentes no nível fônico da língua. Na prosódia, por exemplo, os acentos de altura e intensidade  , a  repetição  dos  mesmos fonemas  no  verso ( aliteração ) ou  de  fonemas  homorgânicos  ( coliteração) podem apresentar valor afetivo .  A evocação sonora sugerida pelos fonemas também pode ser explorada estilisticamente. Veja-se, por exemplo, o poema “ Os sinos “ , de Manuel Bandeira:

Sino de Belém, pelos que inda vêm!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino da paixão, pelos que lá vão!
Sino da paixão bate bão-bão-bão.

A aliteração do /b/ e a reiteração de vocábulos labiais evocam fonicamente o tanger dos sinos. A onomatopéia bem-bem-bem sugere o som metálico e alegre “pelos que inda vêm” (os batizados); bão-bão-bão, o dobre de finados “pelos que lá vão” (os mortos).
  Observemos  agora  o  recurso  fônico  no  poema  “  Os  Sapos “  de  Manuel  Bandeira  onde  se  observa  a  voz  interpretativa  imitadora  do  COAXAR  dos   sapos como  efeito  estilístico   na  repetição : _ “ Meu  pai  foi  à  guerra !

_ “ Não foi “ _ “ Foi ! “ _ “ Não  foi ! “

      Acrescenta-se , embora  não  reconhecida  pelos  técnicos  da  língua  e  da  literatura , a   ESTILÍSTICA  DA  GRAFIA  que  é  um  recurso  para  aproximar no  espaço  físico  da apresentação  poética  a  FÔRMA  da  letra com o  referente  da  FORMA  poesia  em  expressividade  mais visual  do  que  fônica , técnica  também  manifestada no  movimento  concretista da  literatura .  Como  demonstração  deste  tipo  de  recurso  no  poema citado abaixo,  nota-se expressividade   estilística  do som  " / K / "  representado graficamente pela letra   " C "  que , por coincidência , tem a forma de um  " COLAR " aberto .

" COLAR DE CAROLINA "
 
Com seu colar de  coral ,
Carolina 
corre por entre as colunas 
da colina .
O calor de Carolina 
colore o colo de  cal ,
torna corada a menina .
E o  sol , vendo aquela cor 
do colar de Carolina ,
põe coroas de coral
nas colunas da colina .
 
  Um  outro exemplo ,  ainda de  Cecília  Meireles , em  “  JOGO  DE  BOLA “ ,  apresenta no  poema  o eixo semântico  em  que  o  enfoque  está  expressivamente na  FÔRMA  da letra " O " , usando  e abusando  de  sua presença  na  estrutura  do  poema   , até  por que a palavra BOLA  tem a  forma de  um  " O " . Vamos à poesia :
 
 " JOGO DE BOLA "

A BELA bola
rola  :
a bela bola do Raul .

Bola  amarela  , 
a da Arabela .

A  do Raul , 
azul .

Rola a amarela 
e pula a  azul .

A bola é  mole , 
é mole e rola .

A bola é  bela , 
é bela e pula .

É  bela , rola e pula , 
é mole , amarela azul .

A de Raul é de Arabela  , 
e a de Arabela é de Raul .
Parte superior do formulário
 
ESTILÍSTICA   LÉXICA :  Cabe à estilística léxica estudar  os aspectos expressivos das palavras ligados aos seus componentes semânticos e morfológicos, os quais, entretanto, não podem ser completamente separados dos aspectos sintáticos e contextuais . É preciso considerar que o caráter difuso de muitos significados permite certa liberdade em entendê-los e que as sensações que as coisas despertam não são iguais para todos os indivíduos .  As palavras da língua, com os seus significados, não resultam de um raciocínio homogêneo e consciente sobre o mundo das coisas, mas de uma atividade de inteligência intuitiva, procurando consubstanciar experiências parceladas, sem a visão de um conjunto. A estilística léxica  é aquela em que há uma tonalidade afetiva para as palavras decorrente de uma natureza mais ou menos convencional atribuída às coisas significadas.
 
    Passemos  a  alguns  exemplos com  certas  classes  gramaticais utilizadas com expressividade.
Há  na  língua  portuguesa da  família  indo-europeia as  formas  nominais   dos  verbos : infinitivo , gerúndio  e  particípio .  Todos  exprimem processo , ação  e  aspecto .  Em  relação  à  duração  dentro  do  tempo  verbal , o  gerúndio expressa  um  aspecto  durativo  ( movimento ) no  tempo .  Em  “  Rondó  dos  Cavalinhos , de  Manuel  Bandeira ,  composto  no  Jóquei  Clube , onde  tudo  é  MOVIMENTO  , em  que  quase  tudo  se  esvanece , há  uma  acentuada  utilização do  gerúndio , para  caracterizar  a  dinamicidade  do  ambiente temático .

RONDÓ  DOS  CAVALINHOS

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
O sol tão claro lá fora
E em minh’alma — anoitecendo!
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
Alfonso Reys partindo,
E tanta gente ficando…
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
A Itália falando grosso,
A Europa  se avacalhando…
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo…
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh’alma — anoitecendo!
 
Estilística sintática :  O  objetivo de sua análise é a ordem sintática e os fenômenos a ela inerentes, tais como ruptura da ordenação  lógica   preferencial  dentro de um verso ou de uma frase. Nesse caso, à estilística sintática interessam as variantes de colocação, suscetíveis de causar emoção ou sugestionar o próximo.
  Observemos  a  riqueza  de  recursos  estilísticos   presentes  neste  soneto  de  Raimundo  Correia.
 
  ANOITECER                                                                                                                                               

Esbraseia o Ocidente na agonia
O Sol... Aves,  em bandos destacados,
 Por céus de oiro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...
 
 
Delineiam-se, além, da serrania 
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados 
Uns tons suaves de melancolia...
 
Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce 
A sombra à proporção que a luz recua...
 
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua 
Surge trêmula , trêmula... Anoitece.
     
      Exploraremos  ,  além  dos  recursos  sintáticos ,  outros  que  se manifestam  na  poesia .  Inicialmente,  fatos  que  emocionam  e  sugestionam  os  leitores  na  utilização  de  métodos  estilísticos  quanto  à  colocação  dos  termos  na estrutura  da  frase,  motivando  uma  relação  entre  a  posição  das  palavras  e  a  sugestão  relacionada  com  o  conteúdo  poético .  Na  primeira  estrofe (  1º. Quarteto ) já  observamos  alguns  recursos  na  distribuição  das  palavras  na  frase . Vejamos :  em  :

“ Esbraseia o Ocidente na agonia

   
O Sol... “

   O  sujeito  do  verbo  esbrasear  é  o  SOL  que  na  estrutura  lógica  da  frase deveria  estar  antes  do  verbo . Entretanto ,  Raimundo  Correia  optou  em  colocar  depois do  verbo  e  caindo  para  o  segundo  verso,  ocasionando  um  sensação  de  queda   , porque  o  tema  da  poesia  é  o  PÔR  do  SOL : esse é um recurso que torna a frase mais bela e rica poeticamente . Ainda  na  mesma  estrofe  , outros  dois ricos  fenômenos  de  estilística  sintática   em :

     “   ...  Aves,  em bandos  destacados,
 Por céus de oiro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia... “

 No  1º.  Caso ,  o  termo  AVES,  que  é  o  sujeito,  encontra-se  em  grande  distanciamento  de  seu  verbo  FOGEM ,  caracterizando  esse  eixo  semântico  do  verbo  FUGIR , como  um  afastamento  acentuado  . O  2º. CASO   é  a  posposição  do  sujeito  PÁLPEBRA  DO  DIA  do  verbo  fechar  , sugerindo  um  traço  de  fechamento  da  pálpebra ,  como  um  apagar  das  luzes .

        Outros  fenômenos  estilísticos  expressos  no  quarteto são :  Estilística  Fônica  :  Em  “ ... bandos destacados...”  há  uma  coliteração  que  é  a  repetição  dos  fonemas  homorgânicos (  sons  identificados em  todos  os  critérios e  distintos  somente  no  papel  das  cordas  vocais _  surdos  vs  sonoros )  OCLUSIVOS :  /b/ - /d/- /d/- /t/ - /k/- /d/ , sugestionando  a  sensação  de  um  som  explosivo   produzido  pelas  batidas  das  asas dos  pássaros  que  fogem . Estilística  Léxica:  O  recurso  gramatical  no  uso  do plural  da  palavra  CÉUS      ( não  há  vários  céus ) fragmentando  o  espaço  celeste ,   sugestiona  uma  visão  panorâmica   múltipla  , caracterizada  pelas  diversas  nuvens  na  formação  de  partes  do  céu  . E com  uma   bela  expressividade  semântica    na  seleção  do  verbo  “  ESBRASEAR “ ,  sugestionando  um  movimento  de  coloração  próprio  das  brasas  (  acende,  apaga  )  ,  o  que  enriquece  maravilhosamente  o  cenário  poético !
     
    “  Na  criação  de  um  poema  ,  a  escolha  de  palavras  é  marcada  por  critérios  especiais , é  uma  relação  motivada  a  partir  dos  sons  e  dos  ritmos  que   queremos  arquitetar ,  das  imagens  que  queremos  configurar  ,  dos  sentidos  que  queremos  intensificar  ,  o  que  resulta  na  importância  precisa  dos  estudos   centrados   na  estilística . “
 
 Waldemar   Pedro  Antonio                             e-mail  :  [email protected]
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