06/05/2020 às 09h38min - Atualizada em 06/05/2020 às 09h38min

145 – Alimentação dos colonos

Imigrantes Italianos em Leopoldina

Luja Machado e Nilza Cantoni
Para lembrar o Dia Nacional do Imigrante Italiano, comemorado no próximo dia 21 de fevereiro, nada melhor do que uma boa mesa. Daí a ideia do Trem de História de hoje tratar do tema “alimentação dos colonos” às vésperas da comemoração.

Antes, porém, um rápido parêntese para lembrar que o Brasil, possuidor de uma das maiores populações de sangue italiano fora da Itália, instituiu esta data pela lei nº 11687, de 02.06.08, para homenagear a expedição de Pietro Tabacchi que chegou ao Espírito Santo no dia 21.02.1874, marcando o início da imigração italiana para as lavouras brasileiras.

É comum falar de mesa farta, suculentos pratos de massas regados a molhos variados e canecos com os melhores vinhos quando se pensa em alimentação dos italianos. E da culinária italiana dos atuais restaurantes especializados, com seus pratos variados à disposição de todos.

Mas os depoimentos colhidos de pessoas mais velhas, descendentes diretos ou, próximos dos imigrantes que se fixaram na Colônia Agrícola da Constança e nos demais roçados de Leopoldina, apontam para um quadro um pouco diferente.

Antes mesmo de passarem ao Brasil, os colonos que vieram para cá tinham hábitos alimentares concernentes à possibilidade de produção na região em que viviam.

No que se refere ao Veneto, por exemplo, de onde vieram 27,3% dos imigrantes italianos de Leopoldina catalogados até agora, Emilio Franzina[1] relata que a agricultura era ali praticada no sistema de “cultura mista, centrada na tríade produtiva de vinho, trigo e milho”. Segundo esse autor, os proprietários das terras dividiam-nas em três campos, sendo um para milho e dois para trigo, entremeados por fileiras de videiras. Desta forma, tinham assegurada a polenta e a lenha para cozinhá-la.

Já para Renzo Grosseli[2], o pão e a polenta eram indispensáveis na alimentação dos colonos trentinos (1,7%) e lombardos (9,9%) que se estabeleceram no Espírito Santo. A batata, muito cultivada na região em que se estabeleceram, era utilizada pelos italianos para alimentar os porcos. Especialmente os trentinos, informa o autor, procuraram desenvolver a cultura de cereais como o milho e o trigo, além de legumes e hortaliças.

Do que foi apurado em Leopoldina, pelo menos nas gerações mais antigas o vinho e o macarrão não frequentavam as mesas diárias dos colonos. Mesas que, na maioria das vezes, eram montadas na própria cozinha e geralmente rodeadas de bancos de madeira.

Tampouco havia macarrão nos caldeirões levados com o trabalhador para o local do trabalho. Vinhos e massas eram comuns apenas quando o almoço era servido na mesa da sala em dias de visitas, nos “jantarados” dos finais de semana e nas comemorações de algum acontecimento significativo.

E são compreensíveis as razões para esta prática.

O clima quente de Leopoldina não se prestava ao plantio do trigo e da uva. Faltavam os mais elementares recursos para o seu cultivo e preparo nas terras montanhosas da região. Por outro lado, nem sempre estava ao alcance daqueles colonos a aquisição dos produtos deles derivados. Não só pelo preço, mas também pela dificuldade em encontrá-los no armazém próximo ou, se deslocar da roça para a cidade e fazer a compra. Assim, tornou-se muito mais fácil ao colono imigrante adaptar-se à realidade dos que por aqui viviam e aderir aos costumes vigentes.

Outro fator importante ressaltou de alguns depoimentos ao mencionarem que os imigrantes já haviam substituído a massa de suas mesas ainda na Itália, onde o trigo escasseava e atingia altas cotações.

Para estas pessoas, o talharim, os rissoles e pães, ainda na Itália já haviam perdido a concorrência para a polenta (salgada ou doce), os bolos, as broas, as cavacas (bolachas endurecidas), o cubu, o milho cozido ou assado e demais derivados desse grão de cultivo e manejo mais fácil e de mercado bem mais simples.

Decorre daí o hábito, bastante comum na região, de substituir o pão e outros alimentos por fubá cozido em água e sal. Seja no caldeirão do almoço ou, depois de frio, cortado em pedaços para acompanhar o jantar, o café da manhã ou, a merenda vespertina. Assim, também, muito apreciado era o angu com melado de cana.

Substituindo-se o sal por açúcar mascavo (açúcar preto), obtinha-se um angu doce que era despejado em porções na chapa do fogão à lenha e consumido com diferentes acompanhamentos, dependendo do tempo em que permanecia assando. Ainda mole, num prato de ágata, com leite; mais consistente, transformava-se em bolachas muito apreciadas; e, mais endurecido, tomava a forma conhecida como “cavaca”, uma broa que substituía o pão.

Ao ser retirado da panela, o angu ainda deixava uma grossa camada que se denominava ‘raspa’ e que era consumida com leite nas refeições intermediárias. Fatiada e um pouco mais tostada, a raspa era consumida ao estilo de petiscos. E salpicada com açúcar, era saboreada como biscoitos.

Mas não há como falar de alimentação de italianos sem um comentário sobre as massas. Um entrevistado informou que sua mãe “preparava a massa de talharim, esticava-a na mesa da cozinha e cortava as fitas com uma faca, cozinhando-as em água com sal e preparando o molho à parte. Quando a massa cozida era jogada no molho, o cheiro forte atraía a todos, principalmente as crianças”.

Outro informante lembrou que a massa era colocada a secar numa peneira forrada com um pano e mais tarde era enrolada como um rocambole e cortada em fatias para serem cozidas em água quente temperada com gordura de porco.

O assunto pede um pouco mais de espaço. Mas o Trem de História faz uma pausa nesta viagem de hoje prometendo que na próxima edição do Jornal trará o restante da carga. 
Luja Machado e Nilza Cantoni - Membros da ALLA
Publicado na edição 398 no jornal Leopoldinense de 14 de fevereiro de 2020
 
 
[1] FRANZINA, Emilio. A Grande Emigração: o êxodo dos italianos do Veneto para o Brasil. Campinas: Unicamp, 2006. p. 140.
[2] GROSELLI, Renzo. Colônias imperiais na terra do café: camponeses trentinos (vênetos e lombardos) nas florestas brasileiras, Espírito Santo, 1874-1900. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2008. p. 33-34.
 
***
17/03/2020: em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.
 
Link
Relacionadas »
Comentários »