21/10/2015 às 13h26min - Atualizada em 21/10/2015 às 13h26min

As crônicas musicais de todos os estilos nas narrativas poéticas de Chico Buarque de Holanda

Neste  segundo  artigo  sobre  CHICO  BUARQUE  DE  HOLANDA ,  O  CANTINHO MUSICAL  apresentará  uma outra vertente de estilo que mais  se identifica com o autor :  “  A  CRÔNICA  MUSICAL  “ .  Chico  , como  cronista ,  constrói  músicas  com  narrativas  completas , precisas  ,  encadeando  ocorrências  fictícias  ou  reais  dos fatos .  Extrai  do  cotidiano  a realidade  nas letras de suas canções . As composições que se estruturam em  breve histórico da crítica  sócio-literária ,  são denominadas  CRÔNICASChico  Buarque  conta , musicalmente ,  os fatos pautados  em crônica-canção , narrando , assim , as experiências emocionais , sociais e culturais .

             Iniciaremos  a nossa  trajetória  musical  desse belo cronista  com a mais  perfeita   canção : CONSTRUÇÃO .  Nela  Chico Buarque  decodifica  o problema social  do  operário da construção civil , narrando sua  história desde a saída de casa para o trabalho até a queda mortal, atrapalhando o tráfego ,  explorando  um magnífico jogo de palavras , confundindo, assim , a ação desesperadora da personagem . Tomamos a liberdade de acrescentar  , ao final da música ,  parte de outra composição : “ DEUS  LHE  PAGUE  “  de Chico que ele engastou na gravação original de  “  CONSTRUÇÃO  “  

   [ “ / Amou daquela vez como se fosse a última / Beijou sua mulher como se fosse a última / E cada filho seu como se fosse o único / E atravessou a rua com seu passo tímido / Subiu a construção como se fosse máquina /Ergueu no patamar quatro paredes sólidas / Tijolo com tijolo num desenho mágico / Seus olhos embotados  de cimento e lágrima / Sentou pra descansar como se fosse sábado / Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe /

 Bebeu e soluços como se fosse um náufrago / Dançou e gargalhou como se ouvisse música / E tropeçou no céu como se fosse um bêbado / E flutuou no ar como se fosse um pássaro / E se acabou no chão feito um pacote flácido / Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego / Amou daquela vez como se fosse o último / Beijou sua mulher como se fosse a única / E cada filho seu como se fosse o pródigo / E atravessou a rua com seu passo bêbado /Subiu a construção como se fosse sólido / Ergueu no patamar quatro paredes mágicas / Tijolo com tijolo num desenho lógico / Seu olhos embotados de cimento e tráfego / Sentou pra descansar como se fosse um príncipe / Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo / Bebeu e soluçou como se fosse máquina / Dançou e gargalhou como se fosse o próximo / E tropeçou no céu como se ouvisse música / E flutuou no ar como se fosse sábado / E se acabou no chão feito um pacote tímido / Agonizou no meio do passeio náufrago / Morreu na contramão atrapalhando o público / Amou daquela vez como se fosse máquina / Beijou sua mulher como se fosse lógico /  Ergueu no patamar quatro paredes flácidas / Sentou pra descansar como se fosse um pássaro / E flutuou no ar como se fosse um príncipe / E se acabou no chão feito um pacote bêbado / Morreu na contramão atrapalhando o sábado / Por esse pão pra comer , por esse chão pra dormir / A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir / por me deixar respirar , por me deixar existir / Deus lhe pague / Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir / Pela fumaça e a desgraça , que a gente tem que tossir / Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair / Deus lhe pague / Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir / E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir / E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir / Deus lhe pague / . “ ]  .   A crônica  a seguir expressa todo um processo rotineiro na vivência de um casal em um discurso entre o narrador e a mulher amada em ações mútuas .

A palavra BEIJO  tem uma conotação que marca , na trajetória do dia ,  os instantes na escala da partição diária : HORTELÃ, ao despertar ; CAFÉ, pela manhã ;  FEIJÃO, ao meio-dia ; PAIXÃO, no início da noite ; PAVOR , denotando o mistério da meia-noite , repetindo no final da música a estrofe inicial ,  caracterizando um processo repetitivo das ações  rotineiras  . Chico Buarque  demonstra ,  em uma visão  poética , a rotina de uma vida conjugal em  “  COTIDIANO  “ 

  [ “ / Todo dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis hora da manhã / Me sorrir um sorriso pontual /E me beija com a boca de hortelã / Todo dia ela diz que é  pra eu me cuidar / E essas coisas  que diz toda mulher / Diz que está me esperando pro jantar / E me beija com a boca de café / Todo dia eu só penso em poder parar / Meio-dia eu só penso em dizer não / Depois penso na vida pra levar / E me calo com a boca de feijão / Seis da tarde como era de se esperar /

 Ela pega e me espera no portão / Diz que está muito louca pra beijar / E me beija com a boca de paixão / Toda noite ela diz pra eu não me afastar / Meia-noite ela jura eterno amor / E me aperta pra eu quase sufocar / E me morde com a boca de pavor / Todo dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã / Me sorri um sorriso pontual / E me beija com a boca de hortelã . “ ]  . 

Há uma de suas  primeiras crônicas musicais  em que Chico conta a história de um homem , esperando o trem que nunca chega ; esperando um aumento que não ganha nunca ; esperando a sorte de ganhar na loteria .  A repetição do verbo  esperar , no gerúndio ,  cria no corpo da canção o sentimento de expectativa sempre renovada e adiada . O gênero da  canção é uma das características  do autor , enfatizando uma temática de cunho social  em  “  PEDRO  PEDREIRO  “

  [ “ / Pedro pedreiro  penseiro esperando o trem / Manhã , parece , carece de esperar também / Para o bem de quem tem bem / De quem não tem vintém / Pedro pedreiro fica assim pensando / Assim pensando o tempo passa / E a gente vai ficando pra trás / Esperando , esperando , esperando / Esperando o sol / Esperando o trem /Esperando o aumento / Desde o ano passado /Para o mês que vem /  [  Pedro pedreiro penseiro .......  de quem não tem vintém  ] (bis )

 /  Pedro pedreiro espera o carnaval / E a sorte grande do bilhete pela federal / Todo mês /  [ Esperando , esperando ........ Para o mês que vem  ]  /  Esperando a festa / Esperando a sorte / E a mulher de Pedro / Está esperando um filho / Pra esperar também /  [ Pedro pedreiro penseiro ....... não tem vintém  ] /  Pedro pedreiro está esperando a morte / Ou esperando o dia de voltar pro norte / Pedro não sabe mas talvez no fundo / Espera alguma coisa mais linda que o mundo / Maior do que o mar / Mas pra que sonhar / Se dá o desespero de esperar demais / Pedro pedreiro quer voltar atrás / Quer ser pedreiro pobre e nada mais / Sem ficar esperando , esperando , esperando / Esperando o sol / Esperando o trem / Esperando o aumento para o mês que vem / Esperando um filho pra esperar também / Esperando a festa / Esperando a sorte / Esperando a morte / Esperando o norte  / Esperando o dia de esperar ninguém /Esperando enfim nada mais além /Da esperança aflita ,bendita , infinita / Do apito do trem / Pedro pedreiro esperando / (bis) / Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem/ Que já vem , que já vem , que já vem ............/ “ ]  .

 Chico sempre teve a imagem da mulher como fonte criadora e na personagem Geni um ser marginalizado , sendo repudiado pela sociedade que muda o comportamento com a chegada de uma força maior em que o comando se apaixona por Geni , sendo ela agora o eixo da salvação dessa sociedade preconceituosa em  “  GENI  E  O  ZEPPELIN  “ .

  [ “ / De tudo que é nego torto / Do mangue e do cais do porto / Ela foi namorada / O seu corpo é dos errantes / Dos cegos, dos retirantes /É de quem não tem mais nada / Dá-se assim desde menina / Na garagem , na cantina / Atrás do tanque , no mato / É a rainha dos detentos / Das loucas , dos lazarentos / Dos moleques do internato/ E também vai amiúde / Com os velhinhos sem saúde / E as viúvas sem porvir / Ela é um poço de bondade / E é por isso que a cidade /

 Vive sempre a repetir / Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dar pra qualquer um / Maldita Geni / Um dia surgiu , brilhante / Entre as nuvens , flutuante / Um enorme Zeppelin / Pairou sobre os edifícios / Abriu dois mil orifícios / Com dois mil canhões assim / A cidade apavorada / Se quedou paralisada / pronta pra virar geleia / Mas do Zeppelin gigante / Desceu o comandante / Dizendo – Mudei de idéia / - Quando vi nesta cidade /- Tanto horror e iniquidade /- Resolvi tudo explodir /- Mas não posso evitar a fama / - Se aquela formosa dama / - Esta noite me servir / Essa dama era Geni / Mas não pode ser Geni / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um /Maldita Geni/ Mas de fato, logo ela /Tão coitada e tão singela / Cativara o forasteiro/ O guerreiro tão vistoso / Tão temido e poderoso / Era dela , prisioneiro /Acontece que a donzela / - E isso era segredo dela / Também tinha seus caprichos /E a deitar com homem tão nobre  / Tão cheirando a brilho e cobre / Preferia amar com os bichos / Ao ouvir tal heresia / A cidade em romaria / Foi beijar a sua mão / O prefeito de joelhos / O bispo de olhos vermelhos / E o banqueiro com um milhão / Vai com ele , vai Geni /(bis ) / Você pode nos salvar / Você vai nos redimir /Você dá pra qualquer um / Bendita Geni / Foram tanto os pedidos / Tão sinceros , tão sentidos / Que ela dominou seu asco/ Nesta noite lancinante / Entregou-se a tal amante / Como quem dá-se ao carrasco / Ele fez tanta sujeira / Lambuzou-se a noite inteira / até ficar saciado / E nem bem amanhecia / Partiu numa nuvem fria / Com seu Zeppelin prateado / Num suspiro aliviado / Ela se virou de lado /E tentou até sorrir / Mas logo raiou o dia / E a cidade em cantoria / Não deixou ela dormir / Joga pedra na Geni / Joga bosta na Geni / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir /Ela dá pra qualquer um / Maldita Geni /. “ ]  .   

Em 1966 , no II  Festival  de  Música  Popular  Brasileira , Chico Buarque  foi laureado  com o prêmio de vencedor com a música  “ A  BANDA  “ ,  dividindo com  “  Disparada “ de Geraldo Vandré a colocação . Nesse mesmo ano , lançou a canção que se popularizou , alcançando grande sucesso pelo seu lirismo poético , com seu ritmo pausado , cantarolado , que facilita a apreensão da letra e da melodia . Enquanto o conjunto musical desfila pelas ruas  harmoniosamente , o cenário  e as pessoas vão se modificando para ver passar   “  A  BANDA  “ . 

  [ “ /  Estava à toa na vida / O meu amor me chamou / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / A minha gente sofrida / Despediu-se da dor / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / O homem sério que contava dinheiro parou / O faroleiro que contava vantagem parou / A namorada que contava as estrelas parou / Parou para ver , ouvir e dar passagem / A moça triste que vivia calada sorriu / A rosa triste que vivia fechada se abriu / A meninada toda se assanhou /

 Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou / Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou / A moça feia debruço na janela / Pensando que a banda tocava pra ela / A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu / A lua cheia que vivia escondida surgiu / Minha cidade toda se enfeitou / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / Mas para meu desencanto / O que era doce acabou / Tudo tomou seu lugar / Depois que a banda passou / E cada qual no seu canto / Em cada canto uma dor / Depois da banda passar / Cantando coisas de amor  / . “  ] .  

Finalizando esse pequeno e valioso retrato musical desse maravilhoso  cronista  , apresentaremos , em parceria com Vinícius de Morais e Garoto ,  uma bela canção que pinta um verdadeiro panorama do cotidiano brasileiro , demonstrando a simplicidade do homem , sua condição social e observando uma passagem cênica , com visão  de uma janela de um trem , tudo em uma singeleza de nossa   “  GENTE  HUMILDE  “

  [ “ / Tem certos dias em que penso em minha gente / E sinto assim todo meu peito se apertar / Porque parece que acontece de repente / Como um desejo de eu viver sem me notar/ Igual a como quando eu passo no subúrbio / Eu muito bem vindo de trem de algum lugar  / E aí me dá como uma inveja dessa gente /Que vai em frente sem nem ter com quem contar /São casas simples com cadeiras na calçada / E na fachada escrito em cima que é um lar /

   Pela varanda , flores tristes e baldias / Como alegria que não tem onde encostar / E aí me dá uma tristeza no meu peito / Feito um despeito de eu não ter como lutar / E eu que não creio , peço a Deus por minha gente / É gente humilde , que vontade de chorar / . ]  .

     A dificuldade que o CANTINHO  MUSICAL  teve para a seleção das obras apresentadas , dentre uma enorme galeria de  crônicas musicais  compostas por esse  gênio da MÚSICA  POPULAR BRASILEIRA ,  fez-nos , mais uma vez , optar por composições mais conhecidas e populares de um belo acervo musical do  autor. Esperamos que esta pequena demonstração das crônicas de Chico agrade aos leitores e aos apreciadores de suas canções .      

    “  Na  sua  arquitetura poética , Chico Buarque mostra não só a face luminosa como o interior gratinado de ferrugem .  Colore de rouge e batom metade da face e não se intimida ao incomodar os poderosos , provocar o rancor dos aparentemente  dóceis e desacomodar os que vieram apenas para constar , pálidos , da paisagem que ele reinventa a cada dia com notável poder de alquimia  “    (  HERMÍNIO  BELLO  DE  CARVALHO   )

 

Waldemar  Pedro  Antonio                                     e-mail :  [email protected]

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