03/06/2016 às 13h11min - Atualizada em 03/06/2016 às 13h11min

Compositores compromissados com nosso samba de raiz: Noca da Portela e Luiz Carlos da Vila

Noca da Portela e Luiz Carlos da Vila

CANTINHO  MUSICAL  ,  com enorme  satisfação , rende  suas homenagens  neste espaço a  um  filho  querido de Leopoldina na demonstração de seus sambas de  raiz . Estamos falando de  Osvaldo Alves Pereira , nascido em  Leopoldina, no dia 12 de dezembro de 1932 , embora  carioca  por adoção  é mais conhecido como  NOCA  DA  PORTELA  ,  compositor, cantor e instrumentista brasileiro .  Membro da ala dos compositores, Noca classificou seus sambas em concursos e teve músicas gravadas por Beth  Carvalho  , MPB-4, Eliana Pittman, Alcione, Maria Bethânia e outros, totalizando mais de 300 composições gravadas. Compôs para Beth Carvalho o samba  “ Virada “  ,  considerado um símbolo da luta pela democratização do país.

     A  partir de agora , vamos desfilar algumas canções compostas por este sambista de primeira classe que faz parte do quadro de compositores , com enorme merecimento , da música Popular Brasileira . Iniciaremos  com o samba  composto com o filho  que simbolizou uma luta pela democracia  :     “ VIRADA “ .  [ “ / O que adianta eu trabalhar demais, se o que eu ganho é pouco, / Se cada dia eu vou mais pra trás,nessa vida levando soco, / E quem tem muito tá querendo mais,e quem não tem tá no sufoco, / Vamos lá rapaziada, tá na hora da virada vamos dar o troco. Vamos botar lenha nesse fogo,vamos virar esse jogo que é jogo de carta marcada / O nosso time não está no degredo vamos à luta sem medo que é hora do tudo ou nada. / “  ] .


No período da grande inflação no Brasil , a desvalorização da moeda ocorria diariamente a tal ponto que a classe pobre sofria com a remarcação dos preço devido ao  caos  econômico por que passava a nação .  Tomando tal fato como tema , Noca , em um lampejo maravilhoso , compôs um samba que retratou o que era o custo de vida , abrilhantado pela voz de Beth Carvalho :   “  SACO  DE  FEIJÃO  “ . [ “ /  Meu Deus mas para que tanto dinheiro / Dinheiro só pra gastar / Que saudade tenho do tempo de outrora / Que vida que eu levo agora / Já me sinto esgotado / E cansado de penar, meu Deus / Sem haver uma solução / De que me serve um saco cheio de dinheiro / Pra comprar um quilo de feijão / Me diga gente / De que me serve um saco cheio de dinheiro / Pra comprar um quilo de feijão / No tempo dos "merréis" e do vintém / Se vivia muito bem, sem haver reclamação / Eu ia no armazém do seu Manoel com um tostão / Trazia um quilo de feijão / Depois que inventaram o tal cruzeiro / Eu trago um embrulhinho na mão / E deixo um saco de dinheiro / Ai, ai, meu Deus /. “  ]  .

Demonstrando na canção uma característica consumista  da mulher  , Noca  , no roteiro do samba , versa sobre o sacrifício que tem o amado para sustentar a gastança da amada , porque ,se ele não atende ao pedido dela , ela chora . Para satisfazê-la , curva-se do que ela pede , dizendo  :  “  É  PRECISO  MUITO  AMOR  “ .  [ “ / É preciso muito amor / Para suportar essa mulher / Tudo que ela vê numa vitrine ela quer / Tudo que ela quer / Tenho que dar sem reclamar / Porque senão ela chora / E diz que vai embora / Oh, diz que vai embora! / Pra satisfazer essa mulher / Eu faço das tripas coração / Pra ela sempre digo "sim" / Pra ela nunca digo "não" / Porque senão ela chora / E diz que vai embora / Oh, diz que vai embora! / “  ]  .

Noca e Decio  de  Carvalho  compuseram um lindo samba  com perfeita  abordagem das duas  faces do ser humano em relação a seu comportamento diante da vida , agindo ora com falsidade , ora com sinceridade e benevolência . Alcione deu a essa música um molho especial com a sua voz maravilhosa  :  “  VENDAVAL  DA  VIDA  “ .  [ “ / Vou sorrindo com o meu interior chorando / Amargando o meu viver sofrido / E assistindo o que se vai passando / E vou resistindo / Resistindo no meu posto o vendaval da vida / Aplaudindo a quem já vai subindo / Amparando a quem já vem caindo /(E vou sorrindo) / Quantos risos de falsa alegria / Paraíso sem nenhum valor / Lutas pelo pão de cada dia / Sustentando a morte do amor / Mas vou sorrindo / . “  ]  .


Ainda reforçada com a voz de Alcione , a canção  composta por Noca  é um retrato cuja imagem  expressa um enorme sofrimento da separação , lamentando os momentos de grande felicidade vividos pelos amantes e que já estão de   “  MALAS  PRONTAS  “ .  [ “ / Agora que estamos de malas prontas / Trazendo o vazio de um passado / É hora da gente fazer as contas / O nosso balanço já foi fechado / Zerando o que ficou pra trás e tantas / Lembranças que agora não valem mais / Te amei demais (como te amei) / Nos carnavais (olha teu rei) / Nos teus lençóis como eu deitei / O tempo passa, eu te cansei / Era de lei / Tu me cansaste também, meu bem / Te amei demais (como te amei) / Nos carnavais (olha teu rei) / Nos teus lençóis como eu deitei / Se os seus sonhos então / Se acordarem dos meus / O melhor é dizer adeus / . “  ]  .



Clara Nunes é a intérprete  da canção que expressa o desejo da personagem  a respeito da morte , manifestada  sobre uma figura de linguagem  representada pela expressão     “  ÚLTIMA  MORADA  “ . [ “ / Quando eu morrer  / Eu quero uma batucada  / Pra me levar  / À minha última morada / Quero ouvir acordes / De um violão  / E o povo pelas ruas  / Cantando as estrofes  / Da minha canção / Assim no céu / Terei felicidade  / E das belas coisas da vida  / Eu não sentirei saudade/ . “ ]  .




A  cargo do  grupo  Fundo  de  Quintal , ficou a responsabilidade para a interpretação de um samba que é a transfiguração  de  uma  trajetória histórica  na criação de sua escola de coração : Portela , e , também ,  uma crítica velada ao abandono das tradições e das raízes do samba        .             “   PRIMEIRA   SEMENTE  “ .  [ “ / Paulo plantou a primeira semente / E a jaqueira humildemente cresceu / E através de gerações foi mantendo / As tradições que você não conheceu / Poetas, ritmistas e cantores / Eram seus reais valores / E a Portela era feliz / Agora que a bananeira deu cacho / Você chega lá de baixo pra cortar nossa raiz / Dê uma volta no passado / Bem pior quem está errado / E não quer pedir perdão / As folhas da jaqueira que eram belas / Hoje estão tão amarelas como folhas de verão / .] . 

Noca  e  Candeia  compuseram  um belo samba que retrata o arrependimento  da amada por uma traição , indo pedir perdão na esperança de retornar a viver com o parceiro , porém é descartada com termos depreciativos e sem valor :  “  MIL  RÉIS  “ .        [ “ / Hoje tu voltas aqui com semblante a sorrir / Esperando que eu te receba e te dê / Muitos beijos de amor / Esquecendo afinal o que entre nós se passou / Foi você quem errou / Se ajoelhas aos meus pés, mas não vales mil réis / Te conheço, afinal / Não mereço perder tantos anos da vida / Tentarei te esquecer, perdida / Perdida porque não honraste um homem / Manchaste o meu nome e tudo quanto te ofertei / Jogaste fora, como moeda sem valor, um grande amor / Quem me encontrou, me valorizou / . “  ]  .

        Chegou a vez de dedicarmos parte deste artigo a LUIZ  CARLOS  DA  VILA , poeta de primeira envergadura cujas canções estão fixadas na memória dos grande sambistas . Nasceu no bairro carioca de Ramos , no dia 21 de junho de 1949 e morreu no dia 20 de outubro de 2008 . Uma dúvida quanto à substituição do nome  Baptista para o artístico VILA . Há duas informações : ou porque  fazia parte da ala de compositores de Vila Isabel , ou porque foi morador do bairro de Vila da Penha na zona da Leopoldina . Frequentou blocos tradicionais do Rio de Janeiro , sendo considerado um dos formatadores  do samba  carioca . Compôs com grandes nomes do mundo do samba da nova geração .  Além de belas canções  , Luiz Carlos da Vila  , em parceria com Rodolpho  e  Jonas  , foi vencedor do samba-enredo da Vila Isabel , com Kizomba , A Festa da  Raça , vencedora do carnaval carioca de 1988  , iniciaremos a apresentação de alguns sambas magníficos  deste Poeta da Vila .   

“  KIZOMBA , A FESTA DA  RAÇA   “ .  [ “ /  Valeu, Zumbi / O grito forte dos Palmares /Que correu terra, céus e mares / Influenciando a abolição / Zumbi, valeu / Hoje a Vila é Kizomba / É batuque, canto e dança / Jongo e Maracatu / Vem, menininha / Pra dançar o Caxambu / Ô,ô, Ô,ô / Nega mina / Anastácia não se deixou escravizar / Ô,ô / Ô,ô,ô,ô / Clementina, o pagode é o partido popular / Sacerdote ergue a taça / Convocando toda a massa / Neste evento que congraça / Gente de todas as raças / Numa mesma emoção / Esta Kizomba é nossa constituição / Esta Kizomba é nossa constituição / Que magia / Reza, AG1 e Orixá / Tem a força da cultura / Tem a arte e a bravura / E o bom jogo de cintura / Faz valer seus ideais / E a beleza pura dos seus rituais / Vem a Lua de Luanda / Para iluminar a rua / Nossa sede e nossa sede / De que o aparthaid se destrua / . “  ]  . 

O maravilhoso samba a seguir versa sobre um sonho de liberdade , exaltando o fim de todas as opressões e sonhando com um grande momento  de paz , cantado    “   POR  UM  DIA  DE  GRAÇA  “ .  [ “ /  Um dia, meus olhos ainda hão de ver / Na luz do olhar do amanhecer / Sorrir o dia de graça / Poesias, brindando essa manhã feliz / Do mal cortado na raiz / Do jeito que o Mestre sonhava / O não chorar / O não sofrer se alastrando / No céu da vida, o amor brilhando / A paz reinando em Santa Paz / Em cada palma de mão, cada palmo de chão / Semente de felicidade / O fim de toda a opressão, o cantar com emoção / Raiou a liberdade / Chegou o áureo tempo de justiça / Há esplendor, do preservar a Natureza / Respeito a todos os artistas / A porta aberta ao irmão / De qualquer chão, de qualquer raça / O Povo todo em louvação / Por este dia de graça./ . “  ]  . 

Em um belo lampejo lírico , Luiz Carlos da Vila compôs  um samba  coberto de figuras metafóricas , exaltando o seu sentimento amoroso , com expressões de pura vassalagem de amor à sua musa inspiradora , extrapolando ,  em cada verso ,  um lindo sentimento que vai  “  ALÉM  DA  RAZÃO .   [ “ /  Por te amar eu pintei / Um azul do céu se admirar / Até o mar adocei / E das pedras leite eu fiz brotar / De um vulgar fiz um rei / E do nada o império pra te dar / A cantar eu direi o que eu acho então o que é amar / É uma ponte lá para o longe dos horizontes / Jardim sem espinhos / Vinho que vai bem em qualquer canção / Roupa de vestir qualquer estação / É uma dança, paz de criança / Que só se alcança se houver carinho / É estar alem da simples razão / Basta não mentir pro seu coração / . “  ]  .

Este samba é uma linda homenagem prestada após a morte  de  Candeia  , compositor da Portela , que  foi um parceiro  e grande amigo de Luiz Carlos da Vila . Com enorme competência , mescla o nome do homenageado com passagem de luminosidade , clarificando magistralmente toda a trajetória do belo samba , deixando transparecer que   “  O  SONHO  NÃO  ACABOU  “   .  [ “ /  A chama não se apagou / Nem se apagará / És luz de eterno fulgor / Candeia / O tempo que o samba viver / O sonho não vai acabar / E ninguém irá esquecer / Candeia / Todo tempo que o céu / Abrigar o encanto de uma lua cheia / E o pescador afirmar / Que ouviu o cantar da sereia / E as fortes ondas do mar / Sorrindo brincar com a areia / A chama não vai se apagar / Candeia / Onde houver uma crença / Uma gota de fé / Uma roda, uma aldeia / Um sorriso, um olhar / Que é um poema de fé / Sangue a correr nas veias / Um cantar à vontade / Outras coisas que a liberdade semeia / O sonho não vai acabar / Candeia / . “  ]  . 

Um dos tabernáculos do samba na cidade do Rio de Janeiro  situava-se na quadra do  Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos , onde se reunia , à sombra da tamarineira , a nata dos compositores cariocas , às quartas-feiras . Inspirado nessa reunião de bambas , Luiz Carlos da Vila compôs , basicamente , um  hino que simboliza um   “   DOCE   REFÚGIO  “ .  [ “ / Sim ... é o cacique de ramos / Plantou de todos os ramos, cantam os passarinhos nas manhãs / Lá oi e lá o samba é alta bandeira   / E até as tamarineiras são das poesias guardiãs{ bis } / Seus compositores aqueles / Que deixam na gente aquela emoção / Seus ritmistas vão fundo / Tocando bem fundo qualquer coração / É uma festa brilhante / Um lindo brilhante mais fácil de achar / É perto de tudo ali no subúrbio / Um doce refúgio pra quem quer cantar / É o cacique / É o cacique pra uns a cachaça pra outros / A religião / Se estou longe o tempo não passa / E a saudade abraça o meu coração / Quando ele vai para as ruas / A vida flutua num sonho real / É o povo sorrindo cacique esculpindo / Com mãos de alegria o seu carnaval / É o cacique / .  ]  .  

Encerraremos   esta amostra de alguns sambas de Luiz Carlos da Vila , com uma canção , em parceria com Sombrinha ,  que retrata toda uma separação amorosa , expressa em uma rejeição por parte de um amante   “  AMOR ,  AGORA  NÃO  “  .  [ “ /  Chega pra lá, novo amor / Vai procurar novo abrigo, / Meu coração se cansou / E quer fugir do perigo / Toda paixão só resulta, / Sempre em desilusão / Sonhos que vão rolar pelo chão. / E nada poderá conter / Meu ímpeto de ter fechado o coração / Eu sei, que vai ser bem melhor / Ficar um tempo só, / Amor, agora não Amor, agora não/.“].

   A  ideia  central  deste  artigo foi tentar mostrar que a sobrevivência  de toda arte  está  situada  na preservação  de suas raízes  e , sendo o samba uma manifestação  artística , rótulo de nossa  base  cultural , o CANTINHO  MUSICAL  sentiu-se  na obrigação de reservar nosso espaço a estes  dois  compositores  compromissados com  a criação dos bons  sambas brasileiros.

   “   SE  HOUVER  UMA  PERGUNTA  SOBRE  SIMPLICIDADE  E  COMPETÊNCIA  DE  BONS  ARTISTAS , CERTAMENTE ,  A  RESPOSTA  APRESENTARÁ  COMO EXEMPLO  A EXISTÊNCIA  DESTA  MARAVILHOSA  DUPLA  QUE , EM SUA  HUMILDADE  ,  PRESERVA , CRIA E  RESGATA  A ESSÊNCIA  DO PURO SAMBA  BRASILEIRO  “

 

Waldemar   Pedro  Antonio                                   e-mail  :   wpantonio@terra.com.br
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