17/06/2020 às 10h58min - Atualizada em 17/06/2020 às 10h58min

Vida moderna

Saudade da minha mãe! Aos 53 anos, ela usava vestido de senhora, sapatilha no estilo Moleca, cuidava da casa, dos netos e assistia TV à tarde. Aí chega Rita Lee, de calça jeans e cabelos vermelhos, dizendo que  mulher é “bicho esquisito”, quebrando nossos velhos padrões. Eu me explico! Esse mundo moderno exige demais da gente. Bagunçou nossa rotina de nascer, crescer, ficar velho e morrer. Agora  a gente tem que manter o corpo em forma, diminuir carboidrato, cortar o açúcar, dormir oito horas por dia, beber dois litros de água diariamente, ser gentil e empático com todos à nossa volta, dar conta de tudo que está acontecendo no mundo, usar saltos altos, maquiagem, tomar vitaminas, enfim, esticar a juventude o máximo possível. E, claro, 40 minutos de caminhada por dia. Então me vejo acordada às 6 horas, vendo as notícias do dia pelo celular, respondendo às mensagens de WhatsApp - grupo da família, da igreja, do centro espírita, do terreiro, dos colegas de trabalho, da escola dos filhos e daqueles que insistem em, todos os dias, enviar uma mensagem linda e enorme ou uma corrente de orações que apago sem ler. Em seguida, trabalho, nos intervalos do trabalho, preparar almoço, limpar, comer uma banana por causa do potássio, sinvastatina pro colesterol, palavras cruzadas pra prevenir Alzheimer,  lavar os banheiros, as mãos, outra olhada no celular, mais trabalho, levar criança pra escola, pro kung fu, tae boxe, balé, natação,  inglês. Seis copos de água pra compensar o que não tomei de manhã. Arrisco um banho, o celular toca, levo pro banheiro, me distraio no Facebook vendo as disputas políticas locais, sempre muito divertidas e infantis, com os mesmos personagens de sempre disputando o papel principal. Um banho rápido, mais 2 copos de água, meditação pra manter a calma, yoga pra manter o equilíbrio, a academia pra tentar atrasar a lei da gravidade que faz cair tudo, da pestana à unha encravada no pé.  Enquanto o esmalte seca, ouço no youtube as dicas de como plantar tomates no vaso, sonho antigo de ter minha própria horta, aquela que nunca fiz e certamente nunca farei, mas me faz bem aprendê-la e sonhá-la. A noite já está avançada quando me lembro que tenho que caminhar e, também, fazer algo que gosto para levantar minha autoestima. Então, me proponho o óbvio: uma série na Netflix. Só um episódio pra relaxar. Às duas da manhã estou no sexto episódio, entre um cochilo e outro. Crio coragem e vou à cozinha, afinal, faltam 6 copos de água, uma maçã, que é antioxidante, e ... e a caminhada? A caminhada fica pra semana que vem, mês que vem, setembro, afinal, quem sabe quando essa pandemia vai acabar para eu voltar à rotina que me atormentava, mas que agora reconheço, era a rotina de vida que eu escolhi para me manter viva e feliz!
 
 
 
 
 
 
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