09/07/2020 às 16h38min - Atualizada em 09/07/2020 às 16h38min

Vidas não são números

No exato momento em que começo a escrever este artigo, dia 9 de julho, o Brasil contabiliza 68.055 mortes por Covid-19 e o número de casos confirmados já é de 1.716.196. Na maioria dos estados, a situação se agrava a cada dia e não há leitos de UTI suficientes para atender a todos que contraem o vírus. A fila da morte é grande. Mas e daí?

Daí que ao retomarmos a literatura que trata da relação do homem com a morte, depreendemos que o medo da morte é algo ontológico. Desde que a humanidade existe, o medo da morte está presente. Tanto é assim que o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin (1921-), dedicou uma obra inteira, de mais de 300 páginas, a busca da compreensão desse medo. O livro, intitulado O homem e a morte, cuja primeira publicação data de 1951, mostra como o homem lida com a morte desde os primórdios.

No entanto, a pós-modernidade, ou a modernidade tardia, ou ainda a modernidade líquida, parece estar mudando essa relação e o temor da morte parece já não ser algo que preocupa tanto assim o homem. Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polonês falecido em 2017, no livro “Medo Líquido” (2008) sentencia que a morte tornou-se  algo banal,  dada à sua cotidianidade.

O velho Bauman mais uma vez estava certo. Se não, vejamos. Somente no Brasil em 2019, ano em que disseram que o número de assassinatos havia caído, foram registrados 41.653 casos. Somente nos dois primeiros meses deste ano, 7.743 pessoas foram assassinadas. Vale registrar o número de feminicídios nesse mesmo período: 1.143 mulheres mortas pelo simples fato de serem mulheres.

Dois sociólogos brasileiros, Otávio Cruz Neto e Maria Cecília Minayo, ainda em 1994, quando o número de mortes no país era infinitamente menor, buscaram explicar o fenômeno da banalização da vida, utilizando para isso de duas categorias que eles distinguem: o homicídio e o extermínio. O primeiro, de acordo com eles, seria “a exacerbação máxima dos conflitos das relações interpessoais” e o assassino, via de regra, está sujeito às sanções penais.

Já o extermínio é de natureza coletiva e possui uma motivação ideológica, seja com relação a uma raça, a uma etnia, seja com relação à orientação sexual. A título de exemplo do que vem a ser o extermínio, em nosso país, desde o descobrimento até os dias atuais, estima-se que mais de 70 milhões de índios foram exterminados. Tribos inteiras desapareceram.

A pandemia do Novo Coronavírus revelou uma face cruel de parte da população brasileira. Acostumada a assistir pela televisão, em programas como o de Datena (Rede Bandeirantes) um festival de sangue, essa parcela da população parece ter se acostumado com a morte e, como consequência, passou a banalizar aquilo que temos de mais precioso: a vida.

No caso especifico do Brasil, ainda temos um agravante. Nosso mandatário-mor, desde o início da pandemia, tem contribuído para essa banalização, ao dizer impropriedades como: “Isso é uma gripezinha!”, “E daí?”  (quando o Brasil atingiu a marca de 5 mil mortes por Covid-19), “Este é o destino de todo mundo!” ... Na mesma linha de raciocínio – ou de perversidade -, o prefeito de Itabuna Fernando Gomes, ao insistir na reabertura do comércio na cidade baiana em pleno crescimento do número de casos da doença, declarou: “Morra quem morrer!”.

Isso mesmo, vidas não importam mais. Retomando o ponto de partida deste artigo, há de se perguntar o que aconteceu com o ser humano. O medo da morte deixou de assombrá-lo?  Quando vemos pessoas andando pelas ruas sem máscaras, não seguindo as recomendações sanitárias, fazendo aglomerações desnecessárias, como festinhas em plena pandemia, a resposta é sim. E o que dizer dos “inocentes do Leblon” que assim que os bares do Rio de Janeiro reabriram, foram se embriagar de vinho e de vírus nas noites cariocas? O pior é que ao colocarem em risco a vida deles, colocam a de outras pessoas, inclusive muito próximas.

Termino essa minha reflexão sobre a banalização da vida com uma indagação do demógrafo José Eustáquio Alves: “Se você estiver em um barco e vir alguém se afogando no mar você não jogará a boia, porque o destino de todo mundo é a morte?”. A resposta hoje de parte considerável dos mandatários da nação brasileira e de parte considerável da população é sim. Ao relativizarem, deixam subentendido que vidas são apenas números.

(*) Jornalista e Professora da UEMG/Unidade Leopoldina
 
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