08/08/2020 às 11h57min - Atualizada em 08/08/2020 às 11h57min

Educar é socializar

O título refere-se a uma assertiva do professor da Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro, que também já foi ministro da Educação no governo da ex-presidenta Dilma Roussef (Partido dos Trabalhadores). Em sua concepção, o ato de educar não se restringe apenas ao conteúdo, mas é também socialização. Ribeiro defende que a dimensão afetiva tem que ser contemplada pela escola, porque ela é essencial na formação do indivíduo.

Mas como fica a socialização dos alunos, sobretudo das crianças, diante do ensino remoto? É possível contemplar a dimensão afetiva em um ambiente virtual?

Antes de buscar responder a esta pergunta, é necessário fazer uma pequena digressão histórica. Em março deste ano, fomos surpreendidos por um fenômeno completamente inesperado: a pandemia do Novo Coronavírus. O que parecia coisa de ficção científica virou realidade e impactou sobremaneira o sistema de ensino aprendizagem no mundo inteiro. Nada mais, nada menos do que um bilhão e 500 milhões de estudantes no mundo inteiro ficaram fora da escola, uma extensão de nossas casas.

A retomada das atividades presenciais nas escolas brasileiras, sobretudo nas escolas públicas, é algo que está sendo pensado por nossos governantes. Em alguns estados e/ou cidades brasileiros algumas escolas já reiniciaram as atividades de forma presencial.  Mas momento ainda exige muita cautela. E como diria as nossas avós, cautela e caldo de galinha nunca é demais.

Diferentemente de outros países, no Brasil a pandemia ainda está fora de controle. Em alguns estados, como Minas Gerais, o número de casos tanto de infectados quanto de mortos ainda é crescente. E como alardeado e reforçado pelas mídias o tempo todo, ainda não há remédio específico para o tratamento do Covid-19 e também não temos vacina para preveni-lo.

A pandemia do Coronavírus certamente terá muitos reflexos em vários setores de nossa sociedade, reflexos esses imprevisíveis. Mas o foco da discussão que aqui travamos é o impacto da pandemia na socialização dos alunos.

Os teóricos Peter Berger e Thomas Luckman, em seu livro “A Construção Social da Realidade” postulam haver dois tipos de socialização: a Socialização Primária e a Socialização Secundária. Na primeira delas, o principal ator social é a família, a qual age sobre o indivíduo. E ela tem um papel preponderante na formação do indivíduo.

Já a socialização secundária compreende vários atores que podem ser traduzidos em Instituições. Dentre elas destaca-se a escola. Embora a socialização secundária não se sobreponha à socialização primária, ela também contribui de forma significativa na formação do indivíduo.

Como já referido acima com base em Renato Janine Ribeiro, o ato de educar pressupõe o ato de socializar.  Nesse momento em que nós professores estamos às voltas com o ensino remoto – em suas diversas modalidades - precisamos nos atentar a isso.

Mais do que nunca, é necessário encontrar maneiras de fazer esse acolhimento, uma vez que certamente nossos alunos não sairão ilesos desse período de quarentena, dessa pandemia. É possível que algum deles tenham perdido algum ente querido. Será necessário ajuntar os pedaços, refazer, reconstruir, reerguer... corações e mentes.Ainda que não possamos nos descuidar do conteúdo, o momento exige acolhimento, empatia, amor ao próximo.

Ao retomarmos nossas atividades na UEMG/Leopoldina, tivemos esse cuidado. A primeira semana (de 27 a 31 de agosto), para além de nosso diretor Rodrigo Fialho explicar o esquema do ensino remoto planejado pela instituição, num esforço conjunto da direção coordenação e corpo docente, a acolhida dos alunos ocorreu de forma lúdica e poética. Isso mesmo, apresentamos para eles textos poéticos, poemas.

Se por medidas sanitárias ainda não é possível o retorno às salas de aula e muito menos a possibilidade do abraço, cremos ser possível acolher os alunos com poesia e com o aceno de que Estamos juntose de que Ninguém largará a mão de ninguém. Afinal, a novidade é para todos!

É sempre bom lembrar de Rubem Alves, para quem “Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva [...].

(*) Dora Stephan – Jornalista e Professora da UEMG/Unidade Leopoldina
 
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