08/08/2020 às 12h10min - Atualizada em 08/08/2020 às 12h10min

O CADILLAC DO OSWALDINHO – Leopoldina-MG – 1969/71

Oswaldo Zema Júnior era seu nome, filho, óbvio, de Oswaldo Zema, neto de Domingos Zema, este, italiano, radicado em Araxá e, daquela conhecida cidade, um dos seus grandes fomentadores do progresso.

Oswaldinho chegou a Leopoldina em meados de 1969; veio para trabalhar na Distribuidora Zona da Mata de Bebidas Ltda. – Brahma – de propriedade dos seus tios Francisco Fonseca de Souza Leal e de Paulo Martins de Oliveira & Irmãos, de Juiz de Fora, empresa na qual eu já  trabalhava havia mais de 1 ano.

Oswaldinho era boa pinta, como se dizia antigamente, alto, cabelos alourados, olhos azuis, um vasto e simpático sorriso, além disso, vinha “acompanhado” do seu Cadillac Fleetwood, 1954, azul oceânico, quatro portas, numa época em que poucos na cidade poderiam exibir u’a macchina de tal luxo e porte, macchina tal que o situava no patamar dos “motorizados”.

Logo, logo, as garotas da cidade já sabiam que havia um Cadillac rodando pela cidade, pilotado por um gato araxaense, motivo que elevou Oswaldinho ao nível de ostensivamente “paquerado”.

Porém ele não era tão “fácil” e somente poucas garotas conseguiram conquistá-lo e com ele desfilar pelos bares e bailes de então.

Da minha parte, meu relacionamento com ele era amistoso e a cordialidade recíproca era uma constante, ao ponto de ele, numa de suas idas até Araxá, convidar-me a acompanhá-lo na viagem, bem como acolher-me como hóspede na magnífica residência dos seus pais.

Àquela época eu não conhecia Belo Horizonte e ele fez questão de dar um giro pela cidade para que eu a conhecesse, ainda que de passagem.

Tomando a BR 262, então recém asfaltada, lembro-me de passar por Pará de Minas, Nova Serrana, Bom Despacho, Moema, Luz; num trecho da rodovia, no alto da Serra da Saudade (?), daquele planalto, pude contemplar um horizonte terrestre – baixadas a perder de vista – glorificado com um pôr-do-sol in-des-cri-tí-vel e até hoje presente na minha memória.

Em Araxá, ele levou-me a conhecer o Barreiro, onde está o Grande Hotel de Araxá; ciceroneou-me por todo o hotel; apresentou-me as termas com suas magníficas pinturas narrando a história do Araxá; mostrou-me o salão de festas onde eram realizados os grandes bailes do Grande Hotel e os bailes das debutantes de Araxá; conheci a Casa de Dona Beja, figura onipresente na história araxaense; fomos à inauguração do ponto de apoio da Transportadora Minas Goiás e, de lá, ao aeroporto Romeu Zema, assim nominado em homenagem ao seu tio, piloto e falecido em acidente aéreo.

E, tudo isso, a bordo do Cadillac do Oswaldinho ...que conforto! ...que saudades!

No Cadillac fomos a bailes em São João Nepomuceno; algumas vezes a Juiz de Fora, a serviço; Cataguases, Clubes do Remo e Social era quase arroz com feijão, pela proximidade e animação daquela cidade, além do delicioso chope Brahma na boate Gole, do Ricardo Peixoto.

Na Copa do Mundo de 1970, o Brasil vitorioso, tricampeão, eis que lá está o Cadillac do Oswaldinho, superlotado de torcedores, à frente de uma carreata comemorativa trafegando pelas ruas de Leopoldina.

Chega a época da Exposição, 1970, Oswaldinho e Carlos Noguères (contador da Distribuidora Zona da Mata) abrem um bar e restaurante – EXPO’ 70 – cujo sucesso deveu-se tanto aos empreendedores quanto aos pratos e produtos Brahma lá comercializados. 

Em Leopoldina a vida continuou como dantes – trabalho de dia, escola à noite – exceto nos fins de semana, quando sempre aparecia um “trabalho extra” para o Cadillac, fosse um churrasco no sítio do Toninho Neder ou um passeio até Vista Alegre a pedido do Serginho do Rock, sendo que alguns desses passeios foram registrados em fotos pelo Gilberto Pinheiro.

No final de 1970 Oswaldinho se demite da Distribuidora Zona da Mata e parte para o Rio de Janeiro, onde, por indicação e merecimento, torna-se Inspetor da Cia. Cervejaria Brahma, função que consistia em viajar, viajar, viajar, inspecionando as revendas autorizadas Brahma, Brasil afora, no tocante à qualidade de atendimento aos Consumidores.

Nunca mais o vi.

Em 1994 eu gerenciava a Agência Rua Goiás do Banco do Brasil, em Divinópolis, e, por compor o quadro de Instrutores do Programa Bolsa de Gerentes do BB, fui escalado para conduzir uma etapa do Projeto Azimute, do BB, na agência em Araxá.

Lá chegando, acomodado em hotel; saí em busca de restaurante; passo pelo primeiro e entro no segundo; cardápio na mão, peço o prato; acompanha uma Água Mineral Araxá (claro!).

No aguardo, olho para a porta de entrada e, surpresa! ...Entra Oswaldinho, esposa, filhos e uma de suas – lindas – irmãs.

Dirijo-me a ele; apresento-me; dele recebo um caloroso e saudoso abraço; convida-me a sentar com ele e familiares; conversamos; relembramos; comento sobre as fotos do Gilberto, ao que ele “desabafa”:

- Gomes, tenho muitas saudades do Cadillac; eu o vendi e nunca mais soube dele pois desejava recomprá-lo; dele só tenho imagens na memória; dá para você enviar-me cópias das fotos do Gilberto?

Respondi que sim!...Porém os compromissos com e posteriores ao BB– cada vez maiores – levaram-me a não cumprir o que prometi ao Oswaldinho e, de lá para cá, passaram-se 25 anos.

Remexendo antigos “arquivos pessoais”, deparo com as fotos do Gilberto, por mim prometidas ao Oswaldinho; acesso o Google; registro o nome dele; aparece-me os dados do Espólio de Oswaldo Zema Júnior ...falecido!!!

Sim, falecido!  Surpreso e triste, decido que me resta é tentar, post mortem, cumprir, ante seus familiares, a promessa que a ele fiz, no, já distante, ano de 1994.

Do Cadillac e do Oswaldinho, ficam-me as lembranças dos bons e alegres momentos que pudemos, juntos, vivenciar.

 ...Saudades!    ...Adeus!     
 
Edson Gomes Santos – Divinópolis-MG – 11/2019
 
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